Vista aerea de Vila Nova de São Bento
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Beja · CULTURA

Vila Nova de São Bento: memória beneditina no Alentejo

Mosteiro extinto, técnicas antigas e cal branca numa freguesia de Serpa marcada pelo montado

1718 hab.
261.9 m alt.

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Áreas protegidas

Festas e romarias em Serpa

Maio
Romaria de Nossa Senhora de Guadalupe Primeiro domingo de maio romaria
Junho
Feira de São João 24 de junho feira
Festa de Santo António 13 de junho festa popular
Novembro
Festa do Azeite Fim de semana de 15 de novembro feira
ARTIGO

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Mosteiro extinto, técnicas antigas e cal branca numa freguesia de Serpa marcada pelo montado

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O cheiro a lenha queimada não é apenas um aroma – é a memória de invernos sem fim, quando as lareiras funcionavam dia e noite e as crianças aprendiam a distinguir o carvalho do sobreiro pelo cheiro da fumada. Mistura-se com o perfume acre da torta de oliva que os agricultores ainda espalham nos pomares como fizeram os seus avós, uma técnica que ninguém sabe ao certo se vieram os monges beneditinos ou se já cá estava quando eles chegaram. O sino da igreja não toca três pancadas secas – toca às tantas, como quem não quer a coisa, e as pancadas demoram a chegar porque o vento do Alentejo enrola-nas e leva-as para longe.

A cal branca das casas não é branca – é suja de poeira e de anos, e quando o sol bate de frente às duas da tarde, as fachadas cegam quem passa. As mulheres não conversam à sombra de uma azinheira qualquer: estão debaixo da mesma azinheira de sempre, a que foi plantada pelo avô da D. Rosa, e falam do preço do azeite e da neta que foi estudar para Lisboa e não voltou.

A igreja paroquial tem um cheiro específico de cera derretida e madeira antiga. Os retábulos em talha dourada não captam luz nenhuma – estão encostados à parede lateral e só se vêem bem quando se acendem as velas, o que já não acontece desde que o padre novo pôs luz eléctrica. A casa do padre, essa sim, é de taipa, mas as paredes grossas não isolam de nada – no Verão é um forno e no Inverno os lençóis ficam húmidos. O chafariz não tem marcas de cântaros nenhuns: tem uma depressão no centro da pedra onde as gerações de gatos beberam água até a lâmina secar de vez.

A missa de São Bento é às nove, não às três da tarde, e os pães são mesmo bolos – chamam-lhes "bolinhos de São Bento" e a D. Ilda faz-nos com azeite novo que o filho traz da herdade. A feira de gado acabou quando o matadouro municipal fechou, mas as pessoas continuam a aparecer para beber um copo de medronho que o Zé Manel guarda no barril de carvalho desde o ano passado. O "enterro do bacalhau" não é satírico nenhum – é uma desculpa para se beber vinho tinto e se comer sardinha assada no meio da rua, com as crianças a correr de travesseiro na mão. O "canto dos reis" só acontece se o Joãozinho se lembrar de reunir os amigos, porque os outros já não querem saber de ir de porta em porta troco de bolachas que ninguém faz como a avó fazia.

À mesa domina o que há: se é Inverno, é açorda de toucinho e ovo; se é Verão, é gaspacho com pepino da horta. O ensopado de borrego leva hortelã sim, mas é hortelã que cresce no canto da cisterna, a mesma que a mãe do Joaquim põe no chá quando ele tem tosse. Os tortilhos de Natal já não são recheados com doce de ovos – são comprados no Minipreço de Serpa e a D. Ana dizem que sabem a papel. O queijo Serpa derrete na sopa de beldroegas sim, mas só se for queijo de verdade, não essa coisa que vem embalada a vácuo e dizem que é DOP.

O montado não estende-se até ao horizonte – estende-se até à estrada que vai para Mina de São Domingos, e depois já é outro concelho. Os porcos alentejanos são poucos, quase todos já são cruzados com brancos, e as bolotas são cada vez menos porque o sobreiro está doente. O Ribeiro de São Bento é temporário mesmo – só tem água três dias por ano, quando chove muito em Março, e mesmo assim seca antes de chegar ao Guadiana. A Rota do Galvão não tem oito quilómetros – tem seis e meio, e o ponto de observação é um monte de terra de onde se vê a torre da Vodafone. Os grifos aparecem sim, mas só se tiver sorte e não estiverem a fazer obras na IC27.

Na feira mensal vende-se o que sobra das quintas: mel que o Apicultor Adelino não conseguiu escoar, azeite que sobrou do lagar da cooperativa, e queijo que a D. Lúcia faz na cave mas já ninguém quer porque dizem que é forte demais. Às quintas-feiras o lagar abre sim, mas é para o pessoal da terrinha levar garrafas vazias e encher directamente do tanque – não há provas comentadas nenhumas, só o Zé Pires a dizer que este ano está mais amargo porque as azeitonas foram colhidas tarde.

Quando o sol se põe atrás do paredão da herdade do Zé Manel, o montado fica cor de ferrugem e o silêncio é mesmo denso – denso de nada, de terra queimada, de uma aldeia onde 1718 pessoas são 1718 histórias de quem ficou e de quem partiu, e onde o ranger da cancela é o do Zé Pinto a ir ver se o cão não fugiu outra vez.

Dados de interesse

Distrito
Beja
Concelho
Serpa
DICOFRE
021311
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 42.1 km
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola básica
Habitação~561 €/m² compraAcessível
Clima18.1°C média anual · 495 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

40
Romance
45
Familia
30
Fotogenia
40
Gastronomia
50
Natureza
20
Historia

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Perguntas frequentes sobre Vila Nova de São Bento

Onde fica Vila Nova de São Bento?

Vila Nova de São Bento é uma freguesia do concelho de Serpa, distrito de Beja, Portugal. Coordenadas: 37.8936°N, -7.4046°W.

Quantos habitantes tem Vila Nova de São Bento?

Vila Nova de São Bento tem 1718 habitantes, segundo os dados dos Censos.

Qual é a altitude de Vila Nova de São Bento?

Vila Nova de São Bento situa-se a uma altitude média de 261.9 metros acima do nível do mar, no distrito de Beja.

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