Artigo completo sobre Amares e Figueiredo: onde o Cávado dita o ritmo
União de freguesias no coração do Minho, entre granito medieval e vinhas do vale do Cávado
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O sino da igreja corta o ar como a faca do Sr. António no talho — aquele que abre às 7h, mesmo que o dia esteja meio nublado. É junho, e o pão do forno da Dona Rosa ainda vai quente para as mãos de quem chega a correr, que nem quem apanha o 8h15 na Rodoviária de Amares. Do outro lado da rua, o cheiro à vinha sobe a encosta, misturado com o do café da Gelpe — que é o sítio onde o pessoal se cruza para saber quem casou, quem partiu e quem trouxe o neto ao fim-de-semana.
Duas raízes, um território
Em 2013 juntaram-se Amares e Figueiredo como quem une duas mesas na esplanada: já toda a gente se conhecia de vista, agora é oficial. O nome Amares, dizem os mais velhos, vem da água que "amarga" a boca — mas ninguém se queixa, porque é essa mesma água que faz crescer os pastos onde a Carne Barrosã se engorda sem pressa. Figueiredo herdou o ferro: antigamente era só picareta e choupana, hoje ainda há um ou dois que martelam por hobby, mas o ferro agora é mais nas grades dos quintais. A igreja de São Tiago, essa sim, aguenta-se de pedra em pedra desde que os Templários por cá andaram — e se repararem bem, ainda se vê a marca do cinzel do mestre que deixou o trabalho a meio para ir almoçar.
O que se come (e bebe) sem drama
No O Abocanhado, o arroz de sarrabulho leva o sangue do porco que o Zé Mário mata no dia anterior — não vale a pena pedir "sem gordura", que a Dona Lurdes nem ouve. A dois passos, o Central serve bacalhau à Braga com azeite que o próprio produz: se levar pão caseiro, molha o prato até ao fim. O vinho verde não vem em garrafa bonita, vem em caneca e custa menos que o gasóleo. Para a sobremesa, vá ao café da Vila e peça toucinho-do-céu — é da receita da avó da Patrícia, que faz questão de lembrar que "não leva farinha, é só amor e ovos". Leve também uma garrafa de mel das Terras Altas: serve para adoçar o chá e para calar os miúdos quando choram.
Onde se vai perder (e encontrar)
O trilho do Cavado começa mesmo atrás do cemitério — siga as fitas amarelas e não leve sapatos de salto, que a pedra é mais escorregadia que promessa de político. Se subir durante uma hora, chega ao cruzeiro de Nossa Senhora da Paz: de lá vê-se o vale todo, do infantário às torres da Vodafone em Braga. O Caminho de Santiago passa por cá, mas os peregrinos já vêm tão cansados que só querem uma sandes de presunto e a chave do quartido do Bom Jesus — que o Amândio arranja por 20 €, pequeno-almoço incluído. Na serra de Bouro, o sobreiro grande junto à fonte serve de marcação: quem o corta leva sete anos de azar e ainda leva um sermão da Dona Aldina.
Festas em que vale a pena ficar até tarde
Dia 13, o arraial de Santo António ocupa a escola primária: há sardinha a três euros, cerveja a dois e um ou outro tango novo que ninguém sabe dançar mas toda a gente tenta. À meia-noite, o fogo-de-artifício dispara de trás da igreja: é seguro, garante o presidente, que é também o pai do pirotecnico. Em julho, a romaria de S. Tiago começa com missa campal às 7h — quem chegar aos 7h15 ainda apanha o hino, mas já não há banco. À tarde, o desfile de charolas desce a estrada nacional: vai um rebanho de ovelhas, segue-se a carrinha da GNR e, no fim, o carro de bois do Sr. Aníbal que já participa há 40 anos e não falha uma.
Quando o sol se põe, o Cávado fica dourado como a fervura do arroz. O sino toca três vezes, avisando que o café fecha meia-hora depois — tempo suficiente para mais um fino, mais um dedo de conversa e a certeza de que, no dia seguinte, o pão volta a sair quente do forno.