Artigo completo sobre Rendufe: onde o mosteiro beneditino governa há 9 séculos
Visite o Mosteiro de Santo André em Rendufe, Amares, Braga: aqueduto de 55 arcos, talha barroca e 900 anos de história beneditina entre os rios Cávado e Ho
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O som dos sinos escorre pelo pinhal abaixo como quem desce à taberna — não há pressa, vai-se ouvindo até à esplanada. Em Rendufe o Cávado faz de fronteira a leste e o resto é campo: milho, vinha, duas-dúzias de casas e um mosteiro que parece ter nascido ali antes do tempo ser inventado. Pela manhã, o sol bate nos 55 arcos do aqueduto e a pedra fica quente como tijela de sopa — é o sinal de que o dia começou.
O mosteiro que baptizou os pastores
Rendufe vem de Randulfus, avô (ou tataravô, quem se lembra?) de Egas Paes, o senhor que mandou pôr o Mosteiro de Santo André no séc. XII. Com o tempo, Randulfi virou «lugar dos rebanhos» — e era mesmo: ovelhas por todo o lado, monges a contá-las, os outros a pagar dízimos. Durante séculos a freguesia foi um couto que mandava em nove concelhos; o leão do brasão não é decoração, é lembrança de quando aqui se decidia quem comia e quem jejuava.
Hoje o mosteiro abre só ao fim-de-semana de julho a setembro, às 11h, 15h e 16h30. Entra-se pela porta lateral, cumprimenta-se o guarda que parece aquele tio que nunca falha ao domingo, e segue-se a visita: talha dourada que ainda cintila, órgão de 1700 e tal que, quando toca, faz tremer as velas. O claustro é silêncio total — o género de silêncio que só existe onde já rezaram gerações inteiras sem despertador.
Água, pedra e onde se perder
O aqueduto mede uns 300 metros, mas não tem início nem fim visível: começa na horta do Sr. Arménio, enterra-se nos silvados e aparece outra vez junto ao caminho de terra. Serveu para levar água ao convento; agora serve para as crianças contarem fantasmas e os ciclistas fazerem selfie. A subida à Serra de Bouro começa mesmo ali: trilho marcado, pinheiros a fazer guarda-chuva, miradouro que permite ver o Minho inteiro — ou lá o que cabe na janela de um telemóvel.
O que se leva à boca
Rendufe está dentro da região dos Vinhos Verdes: branco leve, gasosa que quase pica, bebe-se à sombra da parreira. Na pedra do tacho fazem-se rojões — carne de porco, colorau, vinho branco, banha até fazer côr de fogo. Acompanhado com broa de milho, claro. Quando se quer luxo, pede-se Carne Barrosã: vaca miudinha da raça, gordura branca que derrete na boca. Para sobremesa, mel das Terras Altas — colher fica em pé — e toucinho-do-céu que justifica o nome. No inverno caldo-verde; no verão, cabrito no espeto regado a azeite novo. Regra simples: se o prato demora mais de meia hora, o vão da cozinha já tem um copo de tinto para o cozinheiro.
Festa, tear e peregrino
Santo António é em junho: procissão, banda, barracas de vinho tinto e garrafas de água-pé que se bebem de pé. Há concurso de bolos, malta do concelho inteiro e fogo-de-artifício que atesta a paciência dos cães da terra. A tecelagem ainda sobrevive em três casas: teares de madeira que batem o compasso, linho que cheira a arreios, toalhas com xadrez que a minha avó diziam «durar duas vidas». O Caminho da Costa passa aqui — uns peregrinos desviam-se para ver o mosteiro, a maioria pergunta apenas onde se serve água e onde se come. Aponta-se o café do Lúcio, diz-se «vá devagar que a estrada engana» e despede-se com um «bom caminho» que soa quase despedida de família.
Quando o sol se põe detrás do aqueduto, o cheiro a lenha queimada mistura-se com o da videira esmagada. A freguesia fica pequena, os carros descem devagar para a estrada nacional e quem fica ouve apenas o rio e o cão do Sr. António que ladra para a própria sombra. Rendufe não é lugar de grandes acontecimentos — é antes um sítio onde o tempo se gasta bem, entre um copo de vinho e outro de água, enquanto o sino toca de novo para lembrar que ainda é hoje.