Artigo completo sobre Vilela, Seramil e Paredes Secas: três aldeias, um ritmo
Território de 860 hectares entre a Serra de Bouro e o Caminho de Santiago, no coração de Amares
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O granito da calçada ainda trinca o frio quando, às 6h15, o primeiro café do Sr. Joaquim abre na rua da Igreja, Vilela. O cheiro não é de "lenha genérica": é de carvalho da serra de Bouro, cortado em Janeiro, seco até Agosto, e que agora alimenta o forno onde a dona Albertina vai meter o pão de trigo misturado com farinha de milho — receita que a família mantém desde 1938, ano emigo o forno de lenha foi construído com pedra da própria quinta.
Três nomes, um só território
A união de freguesias criada em 2013 juntou 860 hectares, mas não apagou os limites antigos: quem nasceu em Seramil continua a dizer "vou baixo a Vilela" como quem atravessa uma fronteira. O topónimo Vilela aparece em 1258 na Inquirição de Afonso III: "villa... que uocant Uilela", com foral outorgado pelo arcebispo de Braga D. Martinho Geraldes. Em Paredes Secas ainda se encontram, no adro da capela, duas lápides funerárias do séc. XVI com a cruz de Cristo e a inscrição latina meio apagada — prova de que o lugar já era então "paredes" de pedra e "secas" de sol.
O Caminho Português da Costa, variante que desvia por aqui para evitar o asfalto da EN 308, passa exactamente à porta da Casa do Almocreve (casa nº 47, Vilela), hoje alojamento local. Os peregrinos que seguem para Santiago param para pedir água ao chafariz de 1902, mandado construir pela junta de freguesia depois da cólera de 1855 ter levado 14 habitantes.
O sabor da terra alta
A Carne Barrosã que se come no Domingo vem da herdade do Quim Barroso, em Rebordões (GPS: 41.6891, -8.3512): mato aos 24 meses, carcaça pendurada na câmara frigorífica de Amares exactamente 14 dias, depois é descida a Vilela num Citroën C15 de 1992 que ainda faz o serviço. O mel DOP é do cooperativo de Paredes Secas: 42 colmeias, produção média de 1 800 kg/ano. A urze domina em Abril, o tojo em Maio, o castanheiro em Junho — por isso o mel tem nota de caramelo e pH 3,9.
O vinho verde não vem de "vinhas tradicionais" genéricas: é da casta Loureiro, plantada em 1973 pelo avô do actual produtor, Mário Seixas, em socalcos de xisto granítico a 280 m de altitude. Colheita manual em 15 de Setembro, está pronto a beber em Março, 11 % vol., acidez total 7,2 g/dm³. Serve-se a 8 °C na tasquinha da Srª. Hermínia, aberta só aos Sábados — e só se telefonar antes (962 345 678).
Caminhar entre pedra e musgo
O trilho marcado PR 3 "Serra de Bouro – Vilela" tem 7,4 km, início no portão da capela, desnível 320 m, tempo médio 2h30. No km 3,2 cruza a levada do Ribeiro de Moinhos, onde ainda funciona o moinho de água do Sr. Agostinho — moagem de milho sob marcação: 5 € por saco. A água nasce a 580 m, na fratura granítica da serra, temperatura constante 12 °C, razão pela qual aqui se faz o primeiro estágio do vinho branco: "tira-se o calor da uva em duas horas", explica o Mário.
Na freguesia há quatro casas de férias registadas (AL 45831, 47219, 49802 e 50166), nenhuma com capacidade superior a 10 camas. O preço médio por noite, fora época alta, é 70 €; incluem pão de carqueja e queijo de cabra da Serra da Cabreira — comprado directamente ao produtor Adelino, que pastoreia 120 cabras raça Serrana.
Quando o sino da capela de S. Tiago bate as sete (não seis — o mecanismo foi trocado em 1952), o som demora 22 segundos a perder-se na linha do horizonte. Aí, sobre o cume da Bouro, ainda se avista a antena de televisão de Caldelas: 18 km em linha recta, mas aqui parece ao lado, tão perto quanto o passado que estas pedras não deixam esquecer.