Artigo completo sobre Campo e Tamel: Sessenta Sepulturas Sob o Adro
A União das freguesias de Campo e Tamel (São Pedro Fins), em Barcelos, revela sessenta sepulturas medievais sob a igreja matriz, num território onde a hist
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O som dos sinos da igreja matriz de São Pedro Fins espalha-se pelo vale numa manhã de nevoeiro baixo. A pedra do adro, gasta por séculos de passos, guarda debaixo de si um segredo que só veio à luz em 2021: sessenta sepulturas medievais, algumas com mais de mil e quinhentos anos, construídas com tegulae romanas. Aqui, onde hoje se estende um território de pouco mais de quatrocentos hectares entre campos agrícolas e casas térreas, o chão respira história antes mesmo de Portugal existir.
Camadas de tempo sob os pés
A necrópole descoberta durante as obras de requalificação da envolvente da igreja não é apenas um achado arqueológico — é a prova física de que este território foi habitado desde o século VI, talvez antes, nos últimos suspiros da Romanização ou nos primeiros tempos paleocristãos. As sepulturas, algumas feitas com grandes telhas romanas reutilizadas, mostram uma continuidade de ocupação que atravessa a queda do império, a conversão ao cristianismo, a formação do reino. A igreja matriz, documentada desde finais do século XI, ergueu-se sobre este cemitério antigo, como se cada geração precisasse de plantar os seus mortos no mesmo solo sagrado.
O nome Tamel vem de tamelo, palavra pré-romana que sobreviveu aos séculos. Campo, por seu lado, remete para a extensão do território — e de facto, quando se percorrem as ruas tranquilas da união de freguesias, o olhar alcança longe: campos de milho no Verão, vinhas baixas de Vinho Verde que verdejam até ao horizonte, pequenas hortas junto às casas onde crescem couves e feijão-verde.
Entre o rural e o próximo
Com uma densidade populacional de trezentos e catorze habitantes por quilómetro quadrado — superior à média nacional —, Campo e Tamel (São Pedro Fins) não são aldeias isoladas do mundo. Estão a dez minutos de Barcelos, cidade que puxa pela economia e pelo quotidiano de muitos dos mil quinhentos residentes. Mas aqui, entre as casas térreas de granito e cal, o ritmo abranda. Os idosos (trezentos e vinte e cinco, quase o dobro dos jovens) sentam-se nos bancos de pedra junto às portas, observam os carros que passam devagar, comentam o tempo.
A Festa das Cruzes marca o calendário anual, momento em que a freguesia se reúne e celebra — mas os detalhes dessa celebração pertencem à memória oral dos que aqui vivem, guardados como receitas de família que não se escrevem. O Caminho Central Português de Santiago atravessa a freguesia, trazendo peregrinos que param brevemente, bebem água, perguntam o caminho, seguem. Alguns ficam nos dois alojamentos disponíveis, acordam cedo com o canto dos galos.
O sabor do território
Não há um prato com nome próprio que se possa reclamar como exclusivo de Campo e Tamel (São Pedro Fins), mas a gastronomia segue a matriz minhota: o Vinho Verde que nasce nas vinhas em redor, fresco e ligeiramente efervescente, acompanha as refeições. Nas cozinhas, preparam-se os guisados que toda a região conhece, com batata, couve e chouriço. O que distingue este lugar não é o extraordinário, mas a persistência do quotidiano — a forma como o pão ainda é cozido em alguns fornos de lenha, o cheiro a fumo de carvalho que sai pelas chaminés nas tardes frias.
Quando a luz da tarde rasga o nevoeiro e ilumina a fachada da igreja, o adro parece um palimpsesto onde todas as épocas se sobrepõem. As tegulae romanas sob a terra. Os alicerces medievais. A cal branca renovada há poucos anos. E os passos dos vivos, que continuam a pisar o mesmo chão que os seus antepassados pisaram há mil e quinhentos anos, sem saberem que caminham sobre uma necrópole silenciosa.