Artigo completo sobre Fornelos: onde o Cávado encontra o Caminho de Santiago
Fornelos, em Barcelos, Braga, preserva memória medieval entre o rio Cávado, a Rota Jacobeia e festas tradicionais como as Cruzes de Maio e o magusto.
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O sino de São Martino não soa, rebenta. Primeiro um trovão curto, depois o eco que se arrasta pelas telhas de grena e cai pelos cantos das casas como pano de poeira. Abaixo, o Cávado leva a água turva de ontem e traz a de amanhã; no espelho do rio os patos-domésticos parecem barcos a vapor. Em maio as raparigas cortam nespereiras às escondidas para encher o arco da procissão — não é flores que se põe, é o cheiro do limoeiro em flor que se vai preso ao cabelo com elástico.
Pedra e devoção no caminho de Santiago
Fornelos deve o nome à cal que queimava nos fornos do outeiro; dizia-se "vou aos fornos" e o nome ficou. O documento mais antigo é um foral de 1515, mas o povo afirma que a igreja já existia quando o primeiro galo cantou. O portal romano é baixo — os cavalos de Alfonso VII esfolaram aqui os joelhos — e dentro há um Cristo de madeira com a boca aberta como quem pede um gole de água. Quem vem a pé por Milhá, cheira antes de ver: o estrume está a curtir no campo e o cheiro sobe a mesma encosta que os peregrinos descem.
A ponte tem três arcas romanas seguidas por duas reconstruções; na seca mostra-se o velho calhau, na cheia esconde-se debaixo de água barrenta. Quem a atravessa de manhã leva o sapato cheio de orvalho e o estômago a ranger — às sete e meia o café Central já tem o pão quente fora do forno e a manteiga derretida na broa.
Cruzes floridas e castanhas ao lume
A Festa das Cruzes começa na tarde de sexta-feira quando as mulheres do lugar se juntam no adro e partir ramagens à faca de cozinha. Cada casa faz o seu arco: umas usam cravinas que vieram de Barcelos de carrinha da Rosa, outras vão ao quintal buscar alecrim e flexas de loureiro. Não há prémio, há birra — quem tem o arco mais alto é porque tem o filho mais alto e quem tem o filho mais alto é porque deu de comer. À noite o rancho toca o Vira até a terra tremer; nos tachos de ferro o leitão vira-se inteiro, a pele estala como pastilha e a gordura pinga na brasa e faz chama.
Em novembro o magusto é na eira da escola antiga. Os rapazitos trazem castanhas no capucho do casaco e os velhos trazem vinho em garrafa de plastico verde. Quem não tem dentes mastiga com os da frente deleito; o vinho novo ainda está a fazer segunda fermentação e borra-se o copo, mas ninguém se importa — o sabor é a uva que não se aguentou na parra.
Rojões, enchidos e o verde da vinha
No domingo, antes da missa das onze, o forno da padaria já tem os tabuleiros de barro com o rojão a estalar. A marinha vem de Campos, o colorau vem da loja do Zé Múcho, o alho é do quintal. A croça forma-se sozinha se o forno estiver direito; se não estiver, a Dona Guida vai lá de xale na cabeça e abana o teto com a pá até o fogo se decidir.
No fumeiro da cave pendem dois chouriços de carne e um de sangue; o fumo de carvalho entranha-se na roupa que se estende no cordel e a vizinha de cima queixa-se que o blusão "cheira a fogueira". As papas de sarrabulho só se fazem quando a matança dá para encher o tacho de cobre — é dia de pôr a mesa na adega e de abrir a garrafa do vinho do ano passado que já perdeu a foça e ganhou corpo.
Entre vinhas e ecovias
A ecovia prometida anda para lá há dez anos; por enquanto é só o trilho que os miúdos usam para ir apanhar morangos-do-mato. A paisagem não precisa de promessa: a vinha sobe em socalcos tão estreitos que o burro tem de vir de lado, o milho cresce até tapar a porta das casas abandonadas e o carvalho da Levada tem um nó que serve de marca aos pescadores — "quando vir o nó, já vai a meio".
Ao cair da tarde o sol bate na fachada da casa do cimo e reflete para dentro da igreja, ilumina o olho direito do santo madeirense. O sino bate três vezes sem ordem — é o sacristão que tem o despertador adiantado. As sombras esticam-se sobre o aduelo e o Cávado leva o reflexo dourado como quem leva uma moeda ao fundo do bolso.