Artigo completo sobre Fragoso: onde o vale calcário guarda vinhas e fé antiga
Igreja de São Pedro e terraços de vinho verde moldam esta freguesia milenar junto ao rio Fragoso
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O sino da igreja de São Pedro toca seis da tarde, e o eco viaja devagar pelo vale calcário, batendo nas encostas cobertas de vinha antes de se perder na curva do rio Fragoso. No adro, o cruzeiro do século XVI projecta uma sombra comprida sobre a calçada irregular, enquanto o Zé da adega ao lado fecha a porta e acende um cigarro, observando as últimas manchas de luz dourada nos terraços aluvionares. O cheiro a lenha de carvalho mistura-se com o aroma adocicado das uvas Loureiro que amadurecem nas latadas — aqui, a 60 metros de altitude, o tempo mede-se em vindimas, matanças do porco e procissões que atravessam os séculos sem pressa.
O vale que se partiu
O nome Fragoso vem do latim "fractus", quebrado, e basta olhar para a topografia acidentada para perceber porquê. O rio Fragoso talhou o vale em terraços férteis, deixando ladeiras íngremes que sobem até aos 180 metros da Serra da Quintela a norte. Foi em torno da Igreja de São Pedro, já mencionada em documentos do século XIII, que a povoação se agarrou à terra, desenvolvendo uma economia de subsistência e vinho verde que persiste até hoje. O frontão barroco da igreja matriz, classificada como Imóvel de Interesse Público, guarda um retábulo rococó em talha dourada que brilha nas missas de domingo, enquanto o campanário setecentista continua a marcar as horas para os 2069 habitantes espalhados pelos 1258 hectares da freguesia.
Na ponte medieval de um arco, em pedra granítica escurecida pelo musgo, há uma inscrição latina gravada em 1623 que amaldiçoa quem cobrar portagem aos peregrinos do Caminho de Santiago. A tradição diz que lê-la em voz alta traz sorte na travessia — e muitos caminantes param para decifrar as letras gastas antes de seguirem os 4,5 quilómetros do troço que atravessa Fragoso, ladeado por muros de xisto e sobreiros retorcidos. Dispersas pelo território, sete cruzeiros de pedra erguidos entre os séculos XVI e XVIII testemunham uma devoção antiga: foram construídos para afastar pragas e tempestades, e ainda hoje as mulheres mais velhas benzem-se ao passar.
Fumo, vinho e cantigas ao desafio
No terceiro domingo de maio, a Festa das Cruzes transforma a freguesia num palco de devoção e alegria. As cruzes floridas saem em procissão ao som de concertinas, as fogueiras acendem-se nos largos e distribuem-se canas de doce e caldo verde fumegante. À noite, ouve-se o "Cântico das Vinhas", cantado em latim e português — uma tradição classificada como Património Imaterial de Interesse Municipal em 2018 — enquanto os homens bailam e as mulheres acenam lenços bordados. No verão, a Romaria de São Pedro traz missa campal e procissão de barcos pelo rio, seguida de leilão de produtos agrícolas onde se disputa a melhor morcela de arroz ou o salpicão mais bem curado.
Nas churrasqueiras comunitárias, durante as matanças do porco, o fumeiro assa devagar enquanto as cantigas ao desafio se estendem pela noite. O cabrito assado em forno de lenha, regado com vinho verde da casta Loureiro, divide a mesa com o arroz de sarrabulho, denso e escuro, feito com sangue de porco, toucinho e enchidos caseiros. No outono, o caldo de castanhas aquece as tardes frias, e os suspiros de Fragoso — merengues crocantes aromatizados com limão — acompanham o vinho novo nas adegas familiares que abrem as portas aos visitantes. Se quiser experimentar, vá à casa do Sr. Joaquim na Rua da Igreja — ele gosta de mostrar a adega e serve o vinho em copos de cristal que a mulher guarda para as ocasiões especiais.
Entre vinhas e peregrinos
O trilho Fragoso–Quintela sobe oito quilómetros por caminhos rurais, passando por casais solarengos em granito com varandas de madeira e bosques de carvalho-alvarinho onde, ao entardecer, os morcegos-de-ferradura caçam sobre as vinhas. Do miradouro no alto da serra, o vale do Cávado desenrola-se em tons de verde e ocre, pontuado por campanários e chaminés de onde sobe fumo branco. Quem traz binóculos pode avistar abetardas e pegas-azuis entre os eucaliptais, ou touro-de-água nas margens do rio.
Há quem venha aprender a fazer pão de milho e broa de batata com as donas da aldeia, cozendo em forno comunitário até a côdea estalar. Outros preferem alugar caiaque para descer três quilómetros até à confluência com o Cávado, levando no saco uma garrafa de vinho verde bem fresco e queijo de cabra transumante. No atelier de olaria, o forno de lenha queima louça de Barcelos moldada à mão, e o cheiro a barro cozido espalha-se pela rua. O olheiro abre às quartas e sextas, mas se bater à porta do Sr. Alfredo aos outros dias, ele abre na mesma — é só dizer que veio recomendado.
Quando a luz rasante da tarde toca o granito da ponte medieval, e o sino toca novamente, há quem pare para ler a inscrição latina em voz alta, testando a sorte. O eco demora a dissipar-se, como se o vale guardasse as vozes de todos os que por aqui passaram — peregrinos, lavradores, missionários que partiram para Angola e nunca voltaram. O rio murmura por baixo, indiferente, levando consigo folhas de vinha e histórias que ninguém escreveu.