Artigo completo sobre Galegos (São Martinho): vida entre o Ave e Barcelos
Uma freguesia densa no coração do Minho, marcada por sinos, vinhas e caminhos de peregrinação
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Cuando la luz cae y el tráfico de la EN205 se aquieta, Galegos muestra su carta: un lugar donde aún saben quién te sirve el café, donde el campanario marca las horas y donde, si paras el coche en la esquina del cementerio, el viejo de enfrente te saluda porque cree que eres hijo de alguien. El campano da las seis, la puerta se cierra con su crujido conocido, y el eco queda en el aire como diciendo: hasta mañana, si Dios quiere.
O som do sino chega antes da vista. No fundo do vale do Ave, onde o verde dos campos se vai mexendo ao sabor do vento até bater nos eucaliptos que marcam o horizonte, Galegos (São Martinho) está ali como sempre esteve. A torre da igreja é o ponto de referência numa paisagem que mistura hortas com casas, e casas com mais casas — porque aqui não há espaço para perder tempo: são 1842 pessoas em pouco mais de três quilómetros quadrados, o que dá quase 600 almas por km². Dá para perceber? É como se metade da freguesia te visse a chegar antes de tu vires o sinal da estrada.
Densidade e movimento
Não é aldeia perdida nem cidade dormitório. É aquela coisa intermédia onde os quintais se tocam, as vozes atravessam a rua sem esforço e o vizinho sabe o que o outro comeu ao jantar. A altitude ronda os 70 metros — ou seja, é tudo praticamente plano, o que explica porque é que os miúdos aqui andam de bicicleta antes de saberem bem ler. A humidade do Atlântico cola-se à pele no Verão e transforma os Vinhos Verdes numa necessidade — ainda há quem tenha uma parreira no quintal, mas a maior parte das vinhas foi dando lugar a casas. É o preço de estar a dez minutos de Barcelos.
Os números dizem o que já toda a gente sabe: 252 putos até aos 14 anos, 349 seniores com mais de 65. Não é drama, é matemática. Mas há vida — na mercearia da Dona Alda, no café do Zé que abre às sete e meia para os operários da Vieira & Filhos, nas mulheres que ainda levam as cadeiras para a porta quando o dia esfria. A proximidade de Barcelos garante emprego, mas é para cá que se vem dormir. E não é pouco.
A cruz erguida no adro
A Festa das Cruzes é o que é: não há fogos de artifício nem concertos com marcação obrigatória. Há três dias em que o adro fica pequeno, as cruzes enfeitadas com flores de papel e tecidos que a Dona Fátima guarda o ano todo, e o arraial montado na escola primária que já não tem alunos. Há sardinha assada, caldo verde e música pimba que ninguém quer ouvir mas toda a gente canta. É quando os filhos que foram para a França ou para Lisboa aparecem com os netos que ninguém conhece, e a tiazinha que nunca casou ainda serve mesas como se tivesse vinte anos. Depois, segunda-feira, tudo volta ao sítio.
Caminho e peregrinos
O Caminho de Santiago passa aqui como quem não quer nada. Os peregrinos aparecem de mochila às costas, pedem água na fonte, tirram uma foto à igreja e seguem. Não há albergue, não há setas amarelas a cada metro — há é a Dona Emília que lhes oferece um bolo de milho quando passam à porta dela. "São pessoas", diz ela, "também eu fui caminhar quando era nova". Tornou-se parte do cenário, como o galo de Barcelos ou o pão de ló da vizinha.
Quando a luz começa a cair e o trânsito na EN205 abranda, Galegos mostra o que é: um sítio onde ainda se sabe quem te atende no café, onde o sino marca as horas e onde, se parares o carro na esquina do cemitério, o velho do lado de lá da rua vai acenar porque pensa que és filho de alguém. O sino toca as seis, a porta fecha-se com aquele ranger conhecido, e o eco fica no ar como quem diz: até amanhã, se Deus quiser.