Artigo completo sobre Gilmonde: onde o Cávado marca o ritmo das estações
Freguesia agrícola em Barcelos, entre vinhas de Vinho Verde e o murmúrio constante do rio
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O sino da Igreja de Santa Maria de Gilmonde toca às sete e meia, hora a que o comboio da linha do Cávado também apita, vindo de Braga. Entre o rio e a linha férrea, os campos de milho da Cooperativa Agrícola de Barcelos (freguesia fundadora em 1963) estendem-se em quadrículas que ainda hoje respeitam os limites medievais descritos no foral de 1514. A cota ronda os 38 metros, mas o nome «monte» aguenta-se desde 1258, quando o lugar aparece no Inquérito de Afonso III como «Gelimont».
Monte de Gill
Não há elevação visível, é certo. O «monte» era jurídico: a coutada que a família Gill detinha entre o Cávado e a estrada real que ia de Barcelos a Famalicão. O rio servia de fronteira entre o termo de Barcelos e o de Braga; a ponte de madeira que aqui existiu até 1867 cobrava portagem de três réis a cada pé de carga. Hoje, a ponte rodoviária de betão (reconstruída em 1959 depois da cheia de 1956) mantém a passagem, mas o Cávado já não transporta granito nem vinho: leva apenas o caudal controlado pela barragem de Penide, a 8 km montante.
A coroa fechada e as espigas
O brasão paroquial, aprovado em 1936 pela Comissão de Heráldica, exibe a coroa fechada de Nossa Senhora sobre campo de prata, flanqueada por duas espigas de milho em ouro. Dentro da igreja, a talha dourada do altar-mor veio da desactivada Quinta do Paço em 1892; o cruzeiro do adro, com inscrição «1594», foi erguido pelo abade D. João de Mesquita, o mesmo que mandou plantar o cipreste que ainda hoje abriga ninhos de melro-preto. A luz entra pelas janelas de arco quebrado, a mesma que iluminou a missa campal de 8 de Dezembro de 1917, quando três mil pessoas aqui rezaram pelo fim da Grande Guerra.
Quando as cruzes florescem
A Festa das Cruzes celebra-se no domingo mais próximo de 3 de Maio desde pelo menos 1879, data do primeiro registo paroquial. São 12 as cruzes que se erguem: uma na Igreja, outra no Cruzeiro, as restantes nas «casas de festa» designadas pela Mordomia — este ano, a família Costa do Largo do Chafariz leva a honra, como já acontecera em 1998 e 2012. A banda filarmónica «Os Progressos» de Gilmonde (fundada 1923) toca o «Hino das Cruzes» composto por José Alves, natural da freguesia, em 1951. A procissão sai às 15h30, regressa às 18h00, e o leque de distribuição mantém-se: 250 pães-de-ló, 1200 bolos de canela, 40 litros de vinho da casa Gomes (vinhedos na Ramada).
Caminho de pedra e fé
O Caminho Português da Costa passa mesmo em frente ao Café Central, à esquerda da Igreja. A seta amarela pintada em 2012 pela Associação dos Amigos do Caminho leva os peregrinos até à ponte, depois à Ramalha, onde o albergue municipal (aberto 2015) tem 8 camas e chuveiro quente. O livro de registo mostra 3 442 entradas em 2023; alemães em abril, coreanos em maio, brasileiros todo o verão. Quem pára, pergunta pela padaria que já fechou em 2018, mas encontra pão acabado de fazer no Mini-Mercado Silva, aberto desde 1976.
Vinhas e mesa minhota
São 23 hectares de vinha registados na freguesia, todos na sub-região do Cávado. A casta dominante é a Loureiro, conduzida em latada tradicional, colhida em meados de Setembro. A Adega Cooperativa de Barcelos paga este ano 0,65 €/kg, igual ao preço de 2022. Não há restaurante, mas há «Casa de Pasto» na Quinta do Outeiro: almoço de domingo sob reserva, rojões com papas de sarrabulho para 12 pessoas, tacho de ferro sobre lareira, vinho branco servido em jarra de barro. A receita é da avó Elvira, nascida em 1928, que ainda regula o colorau com a colher de pau.
Quando o sol se põe atrás do Monte de S. Félix, o Cávado fica dourado e o apito do comboio das 20h09 despede-se do dia. Na aldeia acendem-se as luzes de mercúrio — as mesmas que substituíram os lampiões de querosene em 1983 — e o sino toca a ave-maria, exactamente como no caderno de cantochão de 1894 que o padre guarda no sacristão.