Artigo completo sobre Manhente: pedra romana e cruzeiro dos peregrinos
Freguesia milenar em Barcelos onde o Caminho Português cruza memória medieval e calendário rural
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O granito do cruzeiro está frio ao toque mesmo quando o sol já aqueceu as folhas do milho. No adro, o cruzeiro classificado recebe peregrinos que param para beber água na fonte antes de enfrentar a subida para Faria. O silêncio da manhã só é quebrado pelo arrastar de botas na calçada granítica - vestígio da antiga Estrada Real - e pelo melro que se ouve mas não se vê nos carvalhos que ainda resistem no alto.
Manentem: o que permanece
A toponímia diz tudo. Do latim "manentem" - o que permanece - mas em Manhente o que permanece são sobretudo os nomes. Villae agrícolas deixaram marcas que só os arqueólogos conseguem ler. Nas Inquirições de 1258 já aparecia como "Mainente", lugar de couto de fidalguia. Os brasões em granito que ainda existem - na Casa do Outeiro, na Quinta do Cruzeiro - mostram armas gastas pela chuva, onde quase não se distingue a diferença entre a pedra esculpida e a pedra natural.
A Igreja Matriz tem a data de 1737 gravada na porta, mas o que os manhentinos guardam na memória são os anos em que o padre António aspergia as searas em procissão quando a seca atrasava o milho. O retábulo barroco em talha dourada tem um anjo com asas partidas que ninguém repara há décadas. A Capela de Nossa Senhora da Saúde, na Curraleira, tem o alpendre de madeira que range quando entram os velhos para a missa dominical. Em agosto, quando se faz o Pão-de-Ló, são sempre as mesmas senhoras que ganham - a Maria do Pires e a Amélia - porque sabem o segredo da farinha da Quinta do Bispo.
Calendário de rogações
A Festa das Cruzes, no terceiro domingo de maio, é quando o forno da escola queima lenha das três noites anteriores. A procissão desce a Rua do Cruzeiro onde as mulheres puseram toalhas brancas nas janelas, tradição que ninguém sabe explicar mas todos cumprem. A 20 de janeiro, São Sebastião, os homens trazem os cães de caça para serem abençoados antes da época da raposa. O Compasso de Páscoa é quando os rapazes mais novos aprendem as cantigas que o pai ensinou - "Ó Senhor Morto, onde vai?" - e as portas abrem-se para oferecer vinho e folar.
Sabor a lenha e aguardente
O pão-de-ló de Manhente não é só feito no forno de lenha - é feito com ovos da galinha que cisca no quintal, com açúcar que ainda vem em pacotes azuis do Minipreço de Barcelos. Nas festas, os rojões são do porco que se matou em dezembro, e o sarrabulho só fica bem se a carne sangrar sobre o vinho branco como ensinou a avó. O Vinho Verde sai azedo nos primeiros anos, mas depois de três é quando os ingleses de Braga começam a aparecer para comprar. A aguardente fica no bagaço três meses, depois é quando o Zé do Telheiro vem com o alambique portátil. Os presuntos curam no quarto de cima onde ninguém dorme desde que a avó faleceu.
Trilhos de pé-posto
A Rota das Quintas Vinícolas são três quintas mesmo - a do Cruzeiro, a do Outeiro e a do Bispo - onde o vinho ainda vai à garrafa por mangueira. O Trilho da Levada tem oito quilómetros mas quem o faz são sobretudo os ciclistas de fora, os manhentinos vão de carro. Os caminhos de pé-posto ainda servem para quem tem terra na Curraleira ou na Serra, mas agora os tratores vão pela estrada municipal. No adro da Capela de Nossa Senhora da Saúde, o miradouro tem um banco de cimento onde os velhos se sentam à tarde. Quando o sino toca, é para avisar que é hora do jantar - o som vai morrendo sobre os campos de milho que agora são da Cooperativa de Vila Boa.