Artigo completo sobre Moure: vinhas, granito e o ritmo das estações
Freguesia de Barcelos onde 921 habitantes vivem entre ramadas de Vinho Verde e tradições agrícolas
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A luz da manhã entra rasgada nas vinhas, como quem abre uma cortina sem pedir licença. Moure acorda antes do primeiro tractor — ouve-se antes o galo do Sr. Aníbal, depois o cão do Valeiro que ladra para o mesmo som há dez anos. A 216 metros, o ar traz manteiga da padaria (abre às 6h30, fecha quando a Maria diz “hoje chega”) e o arroz-doce que a D. Rosa leva na marmita para a neta.
Entre as ruas sem nome, 921 pessoas conhecem-se pelos apelidos que se repetem nas campas: Alves, Costa, Silva. Não há placas a apontar monumentos; há antes o chafariz onde ainda se lava roupa, o cruzeiro com a data apagada, a porta pintada de azul que ninguém fecha.
O cheiro entre os postes
As vinhas não são “paisagem”, são despesa e receita. Em julho, o suor cai igual sobre quem poda e quem apenas passa. O cheiro é de enxofre, terra batida e uva pisada que fica nos dedos mesmo depois do jantar. No Inverno, o vento leva a chuva para dentro do casaco e o granito fica escuro como pão torrado. Quem não tem vinha tem horta; quem não tem horta tem um primo que tem.
A tarde que dura o ano
O autocarro escolar engole os 22 miúdos às 7h47 — atrasa-se quando o Henrique esquece a mochila. Depois, silêncio. As mulheres raspam couves no batente; os homens vão para o café do Zé, onde o espresso custa sessenta cêntimos e vem acompanhado de um “então, como vão as coisas?”. Às quartas-feiras cheira a broa de milho; às sextas a sardinha assada atravessa a rua toda.
Quando a cruz leva flores
Em maio, as cruzes vestem-se com papel de seda e margaridas cortadas antes do sol. A banda ensina “Ave Maria” nos oitavos durante três semanas; ninguém liga ao falso. Nas traseiras da igreja, os emigrantes que vieram de França discutem quem paga o vinho enquanto as crianças já roubaram os primeiros bombons da procissão. Durante três dias, o ar fica doce de malmequer e fumiga de sardinha. No domingo à noite, a D. Lurdes recolhe as fitas — guarda-as no sótão, ao lado das fotografias amarelas.
Pegadas que não ficam
O Caminho passa, mas não entra. Os peregrinos bebem água da torneira da escola, perguntam se falta muito para Ponte de Lima, trocam três frases sobre a dor no joelho. Ninguém lhes conta que a capela que lhes serve de abrigo foi onde o padre casou a avó com o avô sem lhes pedir os documentos. Quando regressam à estrada, levantam uma nuvem de pó branco que se assenta nos figos.
O fim do dia que não é fim
Quando o sol some atrás do monte do Viso, o céu fica cor de mosto. O Zé desce as redes de ferro do café, a televisão fica no “ canal das notícias” sem som. Ouvem-se os primeiros grilos, depois o murmúrio das máquinas de rega que se deslocam sozinhas, como barcos na escuridão. Às 22h30, a única luz é a do quarto onde ainda se cospe o fio da meia do neto. Moure não dorme — adormece, como quem deixa a porta entreaberta para o gato.