Artigo completo sobre Oliveira: onde o Caminho de Santiago cruza vinhas minhotas
A freguesia de Barcelos que acolhe peregrinos entre campos de vinho verde e caminhos de granito
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O sino da igreja toca às onze e meia — não às onze nem ao meio-dia, porque o sacristão é homem de hábitos antigos — e o som corre pela Rua da Igreja abaixo como quem desce escadas de pedra. O granito da torre aquece ao sol, mas não o suficiente para secar a humidade que sobe do ribeiro que passa por baixo do adro. É essa água, que ninguém vê mas todos ouvem, que mantém os musgos vivos nas paredes.
Oliveira fica a dez minutos de Barcelos, mas aqui não se sente o cheiro a salsichas que impregna a cidade nas feiras. O que se sente é o pão queimado da padaria — porque a D. Fernanda, que abre às sete, por vezes deita fora um forno inteiro. O cheiro do pão queimado mistura-se com o das figueiras em decomposição, caídas nos caminhos de terra onde os peregrinos passam com as botas recheadas de barro vermelho que nenhum escoveiro consegue tirar.
O Caminho de Santiago vem da Bouça, sobe a Rua do Calvário e desce para a Fonte do Peregrino. Ali, o muro tem uma concavidade polida por costas cansadas. Os caminhantes sentam-se, bebem da torneira que nunca seca, e partem deixando guarda-chuvas partidos ou bengalas improvisadas de azinheira. Ninguém fica muito tempo — sabem que a etapa até Ponte de Lima é longa e a subida da Gandra começa já aqui, escondida entre vinhas.
As vinhas não são como as do Douro. São pequenas, divididas por muros de pedra onde as lagartixas se aquecem. O António da tasca diz que o seu vinho "mata os vermes" — ninguém percebe bem a que vermes se refere, mas bebe-se na mesma. No Outono, as mulheres pisgam-se nos lagares de granito, os pés tingidos de roxo, e as crianças roubam uvas passas das estufas onde os velhos guardam os cachos para o Natal.
A Festa das Cruzes é no domingo mais próximo de 3 de Maio. Nesse dia, as cruzes de papelão — feitas pelas crianças da escola — pendem das janelas como línguas de gato. À noite, há sardinhas assadas no adro e o padre queima o incenso antigo que guarda o ano todo. Os rapazes bebem imperiais demais e vomitam atrás do coreto. As raparigas dançam pimba com os sapatos novos que doem nos calcanhares. Ninguém se lembra quando começou esta festa — a D. Amélia diz que já havia cruzes quando ela nasceu, e ela tem noventa e quatro.
O silêncio de Oliveira não é silêncio nenhum. É o zumbido dos moinhos quando o vento é de norte. É o cão do Sr. Albano que ladra às três da madrugada porque vê a sua própria sombra. É o ranger do ferro da cancela da escola que ninguém óleo há anos. É o eco dos passos na Rua da Capela — aquela que tem casas só de um lado, porque do outro há um precipício onde as crianças perdem bolas e os adultos perdem segredos.
Quando o sol se põe atrás do Cruzeiro, o granito fica cor de mel e as sombras alongam-se como dedos. É nessa hora que as mulheres recolhem os lençóis do estendal, que o pão vai para a mesa dentro de um pano bordado à mão, que os homens se reúnem na tasca para ver o futebol com o som desligado — porque o Sr. Costa está meio surdo e ninguém tem paciência para ele aumentar o volume.
O peregrino que passa leva isto tudo nos pés cansados: o cheiro do pão queimado, o gosto do vinho que mata vermes, o som do sino que nunca toca na hora certa. Leva a imagem das cuecas coloridas a estender no varal, das avós que cospem sementes de melancia para o quintal, dos miúdos que jogam à bola com uma laranja podre. Leva Oliveira inteira, sem saber, nos centímetros de barro que ainda traz colados às solas.