Artigo completo sobre Panque: onde o Cávado desenha a mesa de Barcelos
Freguesia ribeirinha com levadas ancestrais, retábulo barroco e vinhas verdes junto ao rio
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O som chega antes da imagem: a levada murmura ao lado do caminho como quem conta segredos. São 630 habitantes, mas logo de manhã há mais galinhas que pessoas nas hortas de couve e milho que descem até ao Cávado. O sol raspa os campos, os salgueiros esticam sombras de domingo e o sino de Santa Eulália marca as horas com a mesma pressa do café que demora a chegar — ou seja, nenhuma.
A mesa do Cávado
Dizem que Panque vem de "panca", mesa, e olhando para a planície aluvial percebe-se porquê: é tudo plano como um tabuleiro onde a vinha dos Vinhos Verdes divide espaço com pereiras e o milho que ainda alimenta as galinhas. O Cávado marca a fronteira sul — lá vai ele lento, carregando o tempo que as pedras da ponte medieval já viram passar. Quem vem a pé do Caminho Central para cá para as águas do chafariz e pergunta se ainda falta muito para Barcelos. Sempre falta, mas a paisagem compensa.
Retábulo, rodas e cânticos de Janeiro
A igreja de Santa Eulália não é grande coisa de fora, mas entra-se e o retábulo dourado do século XVIII faz lembrar as jóias da minha avó — discreto até apanhar luz. No brasão da freguesia há uma pente e uma roda de azenha; ainda há uma roda de pedra encostada a um muro em Moinhos, como quem espera que a moenda volte à vida. Duas capelas de campo — São Sebastião e São Roque — pontuam os caminhos onde antigamente se iam em procissão, hoje em dia mais para passear o cão. A 20 de Janeiro acordam-se os cães com os cânticos da bênção das casas; a 3 de Maio há Festa das Cruzes com arraial e, no domingo seguinte, a feira onde se vendem doces caseiros ao lado de tractores que já viram melhores dias.
Sapos, papas e vinho verde
À mesa, Panque não disfarça: caldo verde com chouriço que fumegou na lareira, rojões com papas de sarrabulho quando é dia de festa, cabrito no forno de lenha que ainda aquece cozinhas de quem tem paciência. Mas o que marca são os "sapos de Panque" — bolinhos fritos de massa de ovos cobertos de açúcar em pó. O nome é pegajoso, o doce também. Acompanha-se com vinho verde tinto que não engana: leve, fresquinho, serve-se em copos pequenos que se enchem mais vezes que o Benfica ganha ao Porto.
Levada, canoa e pôr do sol na ponte
A Levada de Panque é um canal de água que virou trilho: quatro quilómetros de percurso plano entre hortas onde ainda se planta nabo e feijão-verde. O melhor é ir ao fim da tarde, quando o Cávado fica dourado e a ponte medieval parece saída de postal — só que é real. Quem quiser pode alugar canoa no Clube Náutico de Faria e remar até lá ao por do sol. Os peregrinos param a meio da ponte, mochilas aos pés, e percebem que afinal não faz mal chegar mais tarde a Barcelos. O sino toca as seis, o eco perde-se entre os salgueiros e a aldeia desce para a noite com o mesmo ritmo com que acordou — devagar, como quem sabe que o dia seguinte traz mais do mesmo e isso não é mau de todo.