Artigo completo sobre Remelhe: onde o Caminho de Santiago bate à porta
Freguesia minhota com igreja barroca, solares oitocentistas e peregrinos que atravessam a aldeia.
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O sino da Igreja de São Vicente bate seis quando o último peregrino atravessa o Largo do Cruzeiro. Remelhe é o único ponto do concelho onde o Caminho Central Português passa mesmo pelo meio da aldeia — à porta da igreja, junto ao cruzeiro de granito, debaixo das varandas dos solares oitocentistas. Os 1280 habitantes já nem olham para as botas gastas que param na fonte para encher garrafões antes de seguir para Santiago.
Ramulius, o pequeno ramo
O nome vem do latim Ramulius. A ramagem que deu origem ao topónimo ainda existe nos carvalhos e sobreiros dos baldios, mas hoje quem manda são as vinhas traçadas a régua e os campos de milho que descem ao Ribeiro de Remelhe. A água corre nas levadas onde, até há duas décadas, se lavava roupa ao domingo. Documentada desde 1258, a aldeia teve de entregar galinhas ao castelo de Barcelos por foral. Sobreviveu a pestes e guerras com a teimosia do Minho.
A igreja e o coro dos azulejos
A Igreja Matriz, reconstruída no século XVIII, tem um retábulo de talha dourada que ninguém repara quando a luz entra pelas janelas altas. Subir ao coro exige subir escadas de madeira que rangem — mas lá está a sequência de azulejos setecentistas que conta a vida de São Vicente em azul-cobalto. No adro, o cruzeiro marca o centro da aldeia. Ao lado, o solar de Quintela lembra o médico que partia daqui para Lisboa quando era deputado às Cortes.
Cruzes floridas em Maio
A Festa das Cruzes, no terceiro domingo de Maio, voltou em 1994 depois de 50 anos parada. As cruzes saem em procissão cobertas de flores colhidas na véspera, carregadas por homens descalços sobre mantos de folhagem. O arraial enche o largo de sardinha assada e vinho verde de loureiro das quintas à volta. Em Janeiro, a Romaria de São Vicente abençoa pão na missa cantada. No Entrudo, os caretos de lã e chocalhos de vaca acordam a aldeia antes do amanhecer.
Pão de ló e espigueiros gigantes
Na padaria central, o pão de ló sai às 10h de sábado. Acaba antes do meio-dia. O bolo de São Vicente, de milho e canela, acompanha o caldo verde com chouriço caseiro nas tardes frias. Os rojões à minhota com arroz de sarrabulho são domingo. O cabrito assa no forno de lenha do restaurante O Cruzeiro — é preciso reservar. Os espigueiros de granito guardam milho. Um deles, com 12 metros, é o maior do concelho. O trilho dos espigueiros, 2 km entre vinhas e carvalhos, dá para o vale do Cávado.
Do alto da Senhora da Graça, vê-se a linha do Cávado, os telhados de Barcelos e os campos irrigados pelas levadas. Aos 180 metros, o vento traz cheiro a terra molhada quando a chuva vem do oceano. Ouviu-se o sino das sete — o mesmo que guia peregrinos há séculos, ecoando nas pedras do Largo do Cruzeiro antes de se perder nos caminhos para oeste.