Artigo completo sobre Silva, Barcelos: Vinhas Verdes e Caminho de Santiago
Freguesia minhota de 900 habitantes entre vinhedos, tradição agrícola e passagem de peregrinos
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A calcada range sob os pés - não é poética, é o granito liso que escorrega quando chove. O sino da igreja marca as horas com atraso habitual, como se o tempo aqui tivesse pressa própria. Silva agarra-se a uma planície que mal se nota, terra onde o verde dos vinhedos compete com o milho que ondula ao vento do Cávado.
Novecentas pessoas, dizem os censos. Na prática, são menos - os jovens foram-se embora e os que voltam trazem os netos aos fins-de-semana. As ruas estreitas entre muros de pedra parecem mais largas a cada ano que passa. O silêncio das tardes pesa de verdade: interrompe-se quando a Mercedes da pastelaria buzina às portas ou quando o Júlio liga a moto-serra para partir a lenha.
Caminho de pedra e fé
O Caminho de Santiago passa aqui, sim. Mas os peregrinos vêm mais cansados do que espiritualizados, com as botas rotas e as mochilas a farejar a desgraça. Param no café da Tia Alice para um café e uma mijinha - o WC está lá atrás, junto ao espigueiro.
A Festa das Cruzes ainda acontece em Maio, mas já não é o que era. As raparigas já não fazem as ramagens de manhã, os rapazes já não vão às três da manhã buscar o crasto ao monte. Sobram os foguetes que os velhos atiram com pressa, antes que a polícia chegue. Mas durante três dias, as panelas de ferro voltam a sair dos armários, o ar fica denso de sardinha grelhada e pão-de-ló, e as visitas que só vêm nessa altura fingem que nada mudou.
Dois telhados para dormir
Há duas casas que aceitam hóspedes: a da Dona Amélia, que serve café com leite na caneca e bolinhos de amor que a neta faz na sexta-feira, e a do Sr. Albano, que foi emigrante e trouxe ideias da França - agora tem quartos com casa-de-banho privada e deixa toalhas brancas como nos hotéis.
Não é preciso reserva antecipada, mas é costume telefonar. "Olhe, vimos indicação, tem quarto livre?" - e eles respondem que sim ou que não, sem complicações de Booking. O pequeno-almoço é à hora que se pede: sete e meia para os peregrinos, nove para os preguiçosos, sempre com o pão de milho que a vizinha traz quente.
A mesa que sobrou
Não há restaurantes - o que havia fechou quando o Sr. Custódio ficou viúvo. Mas há a tasquinha do Zé Mário que abre sextas e sábados, onde se serve o que há: se são enguias do Cávado, são enguias. Se é cabrito, é cabrito. O vinho é servido em jarros de barro que a mulher do Zé Mário fazia, antes de partir o braço.
O caldo verde não é o "espesso" dos artigos - é o que dá para matar a fome, com couve cortada à faca e chouriça de porco preto que o Zé fuma na chaminé. A broa vem da padaria de Tamel, mas ninguém estranha - aqui a fronteira entre freguesias é linha no papel, não na vida.
O que ficou para trás
Silva não tem vista para o Instagram porque não tem vista nenhuma. Tem é a rua da Fonte onde as velhas se sentam à sombra às cinco da tarde, tem o cheiro a estrume quando o António espalha na horta, tem o som das vinhas quando o vento é de norte e faz cócegas nas folhas.
O último peregrino desaparece na curva, sim. Mas fica o António a regar o pimento, fica a Amélia a estender a roupa no varal de ferro que o marido pôs há vinte anos, fica o cheiro a lenha que o Júlio partiu e que agora seca ao sol. Silva não é uma fotografia - é um cheiro de terra molhada, um ranger de porta que já não se fecha bem, um "bom dia" que se diz mesmo sem vontade.