Artigo completo sobre Tamel e Vilar do Monte: vinhas, peregrinos e altitude
Entre vinhedos minhotos e o Caminho de Santiago, duas aldeias unidas pela tradição agrícola
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O som chega primeiro: o sino da igreja a marcar as horas, depois o silêncio que se estende pelos campos, apenas pontuado pelo vento que sobe do vale. Em Tamel (Santa Leocádia) e Vilar do Monte, a altitude marca o ritmo — 235 metros acima do mar, numa ondulação suave de terra cultivada onde o verde dos vinhedos alterna com o castanho da terra lavrada. A luz da manhã desenha sombras compridas entre os muros de granito, e há um frio húmido que persiste até o sol subir por completo.
Esta união de freguesias, formalizada em 2013, junta duas aldeias com raízes medievais distintas: Tamel, cujo nome evoca a água abundante que sempre brotou aqui, e Vilar do Monte, erguido num ponto mais alto, como o próprio nome indica. São 1269 habitantes distribuídos por pouco mais de mil hectares, numa densidade que ainda permite o espaço — espaço entre casas, entre pessoas, entre gestos. A população envelheceu: 230 idosos para 139 jovens, reflexo de décadas de êxodo que esvaziou o interior minhoto.
A terra e a vinha
Caminha-se por aqui e percebe-se que a paisagem foi moldada pelo trabalho. As vinhas da região dos Vinhos Verdes estendem-se em socalcos discretos, com as videiras apoiadas em aramados metálicos que substituíram as antigas árvores. A terra é vermelha em alguns pontos, escura noutros, e no Outono o cheiro a bagaço mistura-se com o fumo das lareiras acesas. Há uma lógica agrícola antiga ainda visível nos caminhos entre parcelas, nos poços de rega, nas levadas que conduzem a água desde as nascentes.
O Caminho Central Português de Santiago atravessa estas terras, trazendo peregrinos que seguem a pé, com as botas cobertas de pó ou lama conforme a estação. Cruzam-se com tractores, com carros de bois ocasionais, com mulheres que transportam cestos. A passagem dos caminhantes é discreta — param para beber água, pedem indicações, seguem em frente. Mas deixam uma presença, uma ligação ténue entre o local e o mundo lá fora.
Festa das Cruzes e devoção
A Festa das Cruzes é o momento em que a freguesia se concentra. Procissões percorrem as ruas estreitas, com andores carregados aos ombros, flores frescas presas às varas, o cheiro a incenso a espalhar-se pelo ar. Há música de filarmónica, arraiais com comes e bebes, mesas compridas montadas ao ar livre onde se serve chouriça assada, broa de milho, vinho verde gelado em copos de vidro grosso. É uma celebração que mistura fé e convívio, liturgia e festa popular, num equilíbrio que se repete há gerações.
As outras festividades em honra dos santos padroeiros seguem moldes semelhantes: missa solene, foguetes a rasgar o céu ao meio-dia, tasquinhas improvisadas onde se vende rifas e se joga à malha. Não há grande espectáculo — a instagrammabilidade aqui é baixa, como indicam os números —, mas há autenticidade no gesto repetido, na tradição que persiste porque ainda faz sentido para quem aqui vive.
O quotidiano e o silêncio
Fora dos dias de festa, o quotidiano é feito de rotinas agrícolas e domésticas. Os cafés enchem ao fim da tarde, quando os homens regressam do campo. Ouve-se o tilintar das chávenas, conversas em voz baixa, o noticiário na televisão pendurada na parede. As ruas esvaziam cedo, e ao anoitecer o frio desce rápido, obrigando a fechar portas e janelas.
A noite aqui não tem iluminação pública excessiva. Vêem-se estrelas, muitas, num céu que ainda não foi engolido pela poluição luminosa das cidades. E há um silêncio denso, apenas quebrado pelo ladrar distante de um cão, pelo ranger de um portão mal oleado, pelo vento que não descansa. É nesse silêncio que a freguesia respira — um ritmo lento, desacelerado, onde o peso dos dias se acumula sem pressa, como a cal que amarelece nas paredes antigas.