Artigo completo sobre Real, Dume e Semelhe: onde os suevos fundaram Braga
Três aldeias unidas pela história milenar, desde a catedral sueva até aos caminhos rurais do Minho
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O sino toca — nem sei de qual das três — e o som espalha-se pelas colinas como quem vai à padaria: sem pressa, mas lá vai. Corre nos muros de granito cobertos de líquen, mete-se entre os carvalhos e morre ali mesmo. A 68 metros de altitude, o Minho é isto: verde que nem se vê o fim, húmido que nem cuecas no Inverno, com ribeiros que vão para o Cávado como quem vai ao café — sem pressa nenhuma. Aqui, entre Real, Dume e Semelhe, três aldeias que em 2013 se juntaram numa única freguesia (porque alguém achou boa ideia), caminhamos em cima de história que começa muito antes de Portugal sequer ser desenho.
Uma catedral onde já não se espera
Dume soa mal, é verdade. Mas o nome vem do germânico döm — igreja. É como ter um fossil na língua. Em 558, um tal de Martinho — monge, de Panónia — converteu os suevos do arianismo ao catolicismo e a igreja aqui virou catedral. Hoje, a Igreja de S. Martinho continua de pé. Entras e aquele frio não é de Deus — é da pedra, de catorze séculos de pedra.
A poucos passos, a capela de S. Lourenço. Românica, pequena, mas com ar de quem não precisa de se armar em nada. Dizem que o cabido da Sé de Braga se refugiou aqui numa epidemia e que nos campos ao lado se deu uma porrada com os mouros. Hoje só há eucaliptos e água a correr por baixo da hera. Quem lá vai à segunda-feira encontra portas fechadas e umas pedras que já viram de tudo.
O granito de Real, a cal de Semelhe
Real é a mais gente — 13 mil e tal num sítio que cabia numa palma da mão. Foi villa romana, depois mosteiro beneditino em 660. A Igreja de S. Francisco e o convento anexo são de 1728, mas parecem mais velhos. O granito da fachada, ao fim da tarde, fica dourado como pão torrado. A freguesia oficial nasceu em 1522, por mão de D. Diogo de Sousa — o mesmo que redesenhou Braga porque pode.
Semelhe é a mais discreta. Nome vindo de "Samuelle", Villa de Samuel, dos tempos em que os romanos andavam por cá a fazer estradas e facturas. Esteve agarrada a Tibães até 1891. O Solar de Montariol, de 1259, ainda está de pé — paredes grossas, brasões apagados pela chuva. Dizem que foi fundado por um arcebispo natural da terra. Provavelmente queria casa para os fins-de-semana.
Três caminhos e um santuário no horizonte
Há três Caminhos de Santiago a cruzar-se aqui — Central, Norte e Nascente — como se fossem estradas nacionais. Num dia de nevoeiro, vês peregrinos perdidos no GPS a perguntar se é por ali. O Bom Jesus fica ali ao lado, Mundial da UNESCO e tudo, mas o que estranha é ver tanta gente a passear-se com mochila e bordão como se fossem para a guerra.
Rojões, vinho verde e mel das terras altas
Com 13 682 habitantes em 846 hectares, aqui há mais gente por metro quadrado que no meu prédio. Campo e suburbio misturam-se sem aviso — uma casa nova ao lado de um campo de milho, um galo a cantar ao lado de um carro elétrico.
Mas a comida é de raiz. Rojões à minhota, caldo verde que nem sei como a couve cabe na panela, papas de sarrabulho que parecem obra mas sabem a casa. Vinho verde para acompanhar — ácido, fresco, que faz esquecer o dia. Carne Barrosã e Maronesa vêm das serras, azeite de Trás-os-Montes tempera o que falta e o Mel das Terras Altas põe um ponto final doce.
Festas de S. João cheiram a sardinha e manjerico. A romaria de São Vicente mantém o pessoal acordado. E a de Santa Marta da Falperra faz subir a encosta gente que já não sobe escadas nem no próprio prédio.
O peso exacto de um lugar
Numa manhã de inverno, com a humidade a entrar pelos ossos, o granito da Igreja de S. Martinho brilha como se tivesha saido da máquina. Percebes então que este não é sítio para ver — é para ler, camada a camada, do romano ao suevo, do medieval ao que ainda não chegou. Quando o sino volta a tocar — seja de onde for — não é música. É aviso: aqui já se viveu muito, e ainda falta tanto.