Artigo completo sobre Tadim: Sino, Vinha e Feira de São Bartolomeu
Igreja medieval, concurso pecuário e sacristia barroca no coração rural de Braga
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O sino da Igreja de São Bartolomeu marca as horas como quem não tem pressa. O som viaja entre os muros de pedra e as vinhas que sobem os terrenos suaves, e se trouxer paciência — a verdadeira, das que se leva para o café — ainda se ouve o eco no outro lado do vale. Aqui, a 188 metros de altitude, o tempo funciona à moda antiga: quando a vinha manda, quando a missa acaba, quando o café fecha.
O que valha a pena ver
A Igreja Matriz é o sítio onde toda a gente passou pelo menos uma vez na vida — batizados, casamentos, ou porque a mãe mandou acender uma candeia. Em 2023 abriram-lhe um Centro Interpretativo, coisa que soa a museu, mas é mais como uma arrecadação bem arrumada onde puseram as memórias da aldeia. Vale a pena espreitar a sacristia barroca, que está com bom aspecto depois da restauração. Mas o melhor mesmo é sentar-se no adro e ver a malta passar. Às vezes cruzamo-nos com o padre que conta como a igreja foi crescendo ao sabor de quem tinha dinheiro para obras — tipo casas, mas com mais Deus no meio.
A feira em que os bois são os senhores
No último fim de semana de agosto, Tadim enche-se. As Festas de São Bartolomeu trazem a Feira Franca, que é como dizemos à moda antiga — significa que os produtos isentos de portagens, mas também que é das poucas feiras onde ainda se pode ver um concurso de gado como deve de ser. Os criadores trazem as vacas Barrosãs engalanadas, os cães de guarda ao lado, e há sempre aquele velho que percebe de cornos como quem percebe de vinho. A bênção dos animais é à porta da igreja, com o padre a passar o incenso por entre os burros e as ovelhas, e ninguém acha graça — é assim que se faz. Há queijo fresco a escorrer pelas bancas, enchidos que ainda cheiram a fumeiro, e logo à tarde sobe a procissão com o andor aos ombros e os ramos de loureiro nas mãos. À noite, dança até de manhã, mas é dança mesmo — não essas coisas de DJ.
O que se come (e como se come)
Em Tadim não se inventa receitas, herdamo-las. O arroz de sarrabulho é daqueles pratos que se fazem em dias de matança — leva o sangue da porca, leva a carne do porco, leva o arroz e leva tempo. Serve-se em tigelões, fumegante, com pão caseiro para molhar. As papas de sarrabulho são diferentes: mais grossas, mais picantes, comuns nos dias frios quando a lareira está a bombar. O cozido à portuguesa é como o da vizinha, mas aqui metemos sempre um pouco a mais de toucinho — dizem que é para o sabor, mas é mesmo para enganar a fome. Para acompanhar, vinho verde branco daqui, que não tem nome bonito mas tem álcool a mais do que parece. Para sobremesa, toucinho-do-céu (que não leva toucinho, mas leva açúcar a valer) e compota de abóbora que a dona Emília faz desde 1978 sem alterar a receita — "porque estava bom assim".
Onde perder (e encontrar) o caminho
Não há trilhos assinalados como nos livros, mas há caminhos de terra que levam a sítios. Um deles sobe pela encosta das vinhas — começa atrás do cemitério e vai dar à capela de Santo António, onde há uma pedra com uma covinha que dizem ser do santo. Outro segue o ribeiro até ao Cávado, passa por um moinho abandonado e termina num vale onde o silêncio é tão grosso que até se corta com a faca do caseiro. Leve calçado que não importe sujar, e leve também uma garrafa de água — não há cafés pelo meio, só a natureza e o cão do João que vem farejar estranhos.
À hora em que o sol se põe, Tadim fica dourada como pão tostado. O café da praça ainda está aberto, há três senhores a jogar sueca e o cheiro a lenha que já vem das primeiras lareiras. Não há grandes panoramas para Instagram, nem lojas de recordações. Mas se quiser um sítio onde o tempo se sente — mesmo —, aqui tem. Pode até ser que no regresso à cidade, o sino ainda lhe ressoe dentro da cabeça, como quem diz: "espere, ainda não acabou".