Artigo completo sobre Alvite e Passos: onde o granito vira capela na serra
Entre penedias e casas senhoriais, duas aldeias guardam capelas esculpidas na rocha viva
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O sino da Igreja de São Sebastião toca às sete e meia — não há necessidade de relógio. O som desce o vale, abana os ninhos nas figueiras e vai morrer no rio, lá em baixo, onde as águas do Petimão correm mais devagar porque sabem que estão a chegar a Passos. Entre Alvite e Passos, o granito não é apenas "paisagem": são as próprias paredes das casas, os muros que se desfazem, as lajes onde se seca o milho. Quem passa pela EN 311 vê-as negras de chuva, com musgo nos cantos, mas quem cresceu aqui sabe que ao sol de Agosto queimam como lâminas.
Quando a pedra se torna oração
A Capela de Santa Catarina não está "encrustada" na rocha — foi a rocha que se abriu caminho para dentro da capela. Entra-se por um corredor estreito, onde o ar fica logo mais pesado, e só depois se vê o altar pequeno, iluminado por uma candeia que cheira a azeite ranco. Mesmo no dia mais quente, o granito transpira água fria que escorre pelas paredes e faz bolhas nas pinturas. Do lado de fora, a Casa da Torre continua a defender-se de inimigos que já ninguém se lembra: a portada de arco quebrado serve agora de abrigo aos chapins das galinhas que a vizinha D. Alda deixa andar à solta. Mais acima, na Casa de Santo Antonino, o Museu dos Coches está fechado há dois anos — chave na loja do Gaspar — mas quem bate à janela do rés-do-chão pode ver ainda o reflexo das rodas douradas no espelho partido da entrada.
O rio, os lameiros e a vitela
O Petimão não é largo, mas é fundo onde importa. Nos lameiros de Passos, a erva cresce tão alta que as vacas desaparecem — só se ouvem as campainhas. A carne que daqui sai não precisa de nome: é a vitela que se come assada no forno de lenha do restaurante "Adega do Edgar", em Cavez, com batatas mal passadas debaixo para sugar a gordura. Quando há romaria, são os próprios caseiros que trazem os toiros no reboque, trocam umas palavras no adro e depois vão para a esplanada do "Central" beber um branco gelado que o Adelino serve num copo de ágata. O bacalhau à lagareiro é do dia anterior — ninguém tem paciência para esperar que desfie na hora.
Romarias e memórias nobres
As romarias são o que resta das feiras. No domingo de São Sebastião, a Procissão das Papas começa logo depois da missa das nove: as mulheres da Irmandade distribuem colheres de pau e o padre João Paulo benze as panelas antes de as entregar aos rapazes que vão bater as panelas pela vila abaixo. Quem não quiser papas vai para o largo da igreja, onde o Joaquim do talho vende sandes de torresmos a um euro e meio. A Casa de Lamas já perdeu o telhado da eira, mas o brasão ainda se aguenta — um leão de pedra com a língua partida que os miúdos gostam de escalar para fazer fotografias. O pelourinho de Alvite serviu mais para amarrar burros do que para pregar sentenças; hoje é onde se penduram as fitas das marchas populares.
Entre a serra e o vale
Quem vem de fora pensa que é tudo igual. Não é. A estrada municipal 1133 sobe até aos 580 metros no Penedo, onde o ar fica mais fino e as urzes substituem as videiras. Lá em baixo, no Fundo do Vale, ainda se faz vinho em lagares abertos — pisam-se as uvas com pés descalços e jorra o sumo pelas bocas de lobo como no tempo do avô. A densidade populacional é baixa, mas nas tardes de verão as casas estão todas cheias: netos que voltam das cidades, carros estacionados em cima das valas, cheiro a sardinha na grelha misturado com o fumo das fogueiras que se mantêm acesas até de madrugada. O silêncio só regressa depois das duas — quando o último cão para de ladrar e o tractor do Zé Carlos, lá longe, desliga o motor.
No adro da igreja, depois da missa, o Mel das Terras Altas é servido com pão de centeio que a Fátima traz ainda quente, embrulhado num pano de algodão. O mel é tão espesso que a colher fica em pé — prova-se devagar, para sentir o tomilho e o carqueijo que as abelhas foram buscar à serra. É um sabor que fica na boca o dia inteiro, como quem regressa a Alvite e Passos e percebe que, afinal, nunca esteve verdadeiramente ausente.