Artigo completo sobre Faia: vinhas, granito e festas no coração de Basto
Freguesia de Cabeceiras de Basto onde a ruralidade vive ao ritmo das vindimas e romarias antigas
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O cheiro a lenha queimada não é posto de encenagem: é o mesmo que cheira às sete da manhã quando passas em frente à casa do Sr. Adelino e o «pão de ló» dele ainda está a aquecer no forno a lenha. A terra, essa, cheira a terra — não a «terra lavrada», a terra mesmo, húmida de orvalho e de estrume de vaca. Em Faia não há neblinas poéticas; há manhãs em que o nevoeiro é tão denso que o trator do Zé Manel parece um fantasma a sumir-se na encosta. São 555 almas, contadas de cor pelos mais velhos, que sabem de cor quem casou com quem e por que motivo a tia Albertina nunca saiu de casa depois da guerra.
Pedra que resiste — e queixa-se
A igreja matriz não «ergue-se»; está ali desde que os nossos avós nasceram e vai aguentando o tranco, embora a torre incline um bocadinho para norte depois do temporal de 2018. Lá dentro, o banco da esquerda range sempre no mesmo sítio — experimenta sentar-te no terceiro lugar a contar do coro. As capelas de São Sebastião e dos Remédios parecem postos de controlo: se não deres três palavras ao cidadão que está sentado no muro, passas por forasteiro logo à primeira. O granito não é «cinzento que envelhece devagar»; é cinzento que descasca, que faz bolhas de quartzo e que, se lhe bateres com a moeda, devolve um som de caco vidrado.
Festas que não cabem na rua
Começa tudo com as Papas de Sarrabulho, sim, mas o segredo é o pão de milho da Dona Odete, feito dois dias antes e partido à mão para não «matar» o caldo. Em Janeiro o frio corta-te a respiração, por isso leva a malha grossa e não te queixes se te sentarem no banco sem almofada. A romaria de São Bartolomeu de Cavez é o dia em que os gatos começam a andar aos pares: aparecem primos que juravas viver no Porto, ex-namorados que fingem não te reconhecer e o cabrito que só sabe bem se for do forno do Sr. Aníbal — pede a perna, que ele guarda debaixo do pano para quem chega atrasado.
À mesa — sem pose
O rojão não é «marinado em colorau»; é o pernil do porco do Lopes, cortado na véspera, salgado de madrugada e frito em banha de porco até ficar seco por fora e molhado por dentro. Come-se com a mão, suja o pão na gordura e não te esqueças de limpar o prato com a broa — a da Padaria do Fundão, que ainda vai a meio do forno quando passas às sete da manhã. O toucinho-do-céu da Dona Lurdes parece que foi inventado para fazer inveja aos defuntos: massa húmida, gema a escorrer e um cheiro a canela que fica na cozinha durante três dias. O vinho verde é branco, do quintal do Sr. Arlindo, engarrafado em garrafões de cinco litros e servido em copos de água: não faças careta à acidez, ele avisa logo à primeira que não está para meias-medidas.
Trilhos — leva água e juízo
Não há placas, não há setas, não há «app» que te salve. Começa no Cruzeiro, desce até ao rego do Poço, sobe o muro onde seca a roupa da Dona Emília e segue o muro de pedra até à curva onde o cão do Zé Grande ladrou ao carteiro durante trinta anos. Se chegares ao moinho de Cavez, voltaste demasiado; se vires a vinha do Americano, já foste. Leva garrafa, leva um pedaço de broa e não te meta a conversar com o Sr. Jacinto às onze da manhã — ele fala-te das uvas até ao pôr do sol e depois leva-te a casa para mostrar fotos do neto.
Quando o sol se põe atrás do Viso, o fumo sobe outra vez e o cheiro é o mesmo que o da manhã, só que agora misturado com o caldo verde que a Dona Idalina está a fazer no pátio. A aldeia não «recolhe-se»; limita-se a fechar a porta, baixa a voz e deixa o cão farejar quem passa. Se ainda estiveres na rua às dez, ouves o ranger do portão do bar quando o Sr. Joaquim vai buscar o último fino. Nessa altura já sabes que Faia não é lugar que se «visite»; é lugar onde se fica — nem que seja só até ao próximo autocarro, que é às seis da manhã e parte cheio de pão de ló debaixo do braço.