Artigo completo sobre Gondiães e Vilar de Cunhas: serra e silêncio em Basto
Aldeias de xisto a 815 metros na Serra da Cabreira, entre trilhos antigos e carnes DOP de montanha
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O fumo da lenha sobe direito das chaminés de xisto até se perder no ar rarefeito dos oitocentos metros. Ao fundo, a Serra da Cabreira desenha-se em camadas de verde-escuro — pinhais, carvalhais, matos que guardam o cheiro a urze e a terra húmida. Aqui, entre Gondiães e Vilar de Cunhas, o silêncio tem espessura: ouve-se o vento a passar nos ramos, o murmúrio da ribeira de Cavez lá em baixo, o sino distante da Igreja Matriz de São Tiago que marca as horas sem pressa.
Esta união de freguesias nasceu da reforma administrativa de 2013, mas as aldeias que a compõem — Gondiães, Vilar, Samão, Cunhas — são muito mais antigas que qualquer decreto. Trezentos e quarenta e sete habitantes distribuídos por mais de quatro mil hectares, densidade que se sente na amplitude das vistas e na distância entre casas. Os nomes guardam memórias: Gondiães remete à família Gondã, proprietária de terras desde o século XIV, Vilar de Cunhas junta a palavra "aldeia" ao apelido da casa nobre dos Cunhas. O território integra as Terras de Basto, zona de ocupação humana desde a época pré-romana, embora aqui os vestígios mais eloquentes sejam a própria paisagem e o modo como as gentes a habitam.
Onde a serra dita o ritmo
A altitude média de 815 metros condiciona tudo: o frio cortante das manhãs de Janeiro, quando a geada branqueia os campos à volta do Cruzeiro de Gondiães, a luz intensa de Agosto que seca as ervas no adro da Capela de São Sebastião. A Serra da Cabreira oferece miradouros naturais no Largo do Cruzeiro em Cunhas, na Rua do Alto em Vilar e no caminho para o Poço Negro em Samão, pontos onde o olhar alcança o vale do Tâmega e as torres da barragem de Touvedo. Nos parques de merenda de Moinhos de Rei, Ponte da Víbora e Veiga, mesas de granito aguardam debaixo de carvalhos centenários onde os avós jogam sueca à sombra. Os trilhos rurais cruzam caminhos antigos, passam pela levada do Carvalhal, sobem até ao Planalto de São Marcos onde se avistam veados — reintroduzidos pela Associação de Caçadores de Cabeceiras de Basto em 2009 e agora parte da paisagem sonora, com os seus bramidos no cio de Outubro.
Carne de montanha e mel de altitude
A gastronomia assenta na Carne Barrosã DOP e na Carne Maronesa DOP, raças autóctones criadas em regime extensivo nas pastagens da Quinta da Serra e do Monte de São Gonçalo. Na Festa de Nossa Senhora dos Remédios, a 15 de agosto, as mesas de madeira na Praça da Igreja enchem-se de papas de sarrabulho do restaurante O Cantinho de S. Tiago, rojões à moda de Basto do tasco A Paragem, caldo verde espesco da Dona Fernanda. O Mel das Terras Altas do Minho DOP, produzido nas colmeias do Casal do Meio, tem o sabor concentrado das flores de montanha: urze, castanheiro, silvas bravas. Acompanha tudo o vinho verde da Quinta das Quintãs, fresco e ligeiro, que corta a gordura da carne e pede outra malga.
A memória do fogo
Em 15 de outubro de 2017, o fumo subiu denso do souto de Valverde, avistado primeiro pelo Sr. Albano na herdade das Espinheiras. O incêndio florestal cercou Samão às 14h30, quando as crianças saíam da Escola Básica de Gondiães. O vento do nordeste empurrava as chamas pela encosta acima, passando a arder na faixa da EN 206. A aldeia resistiu graças ao trabalho dos bombeiros de Cabeceiras de Basto e vizelenses, mas a cicatriz ficou gravada na serra — troncos negros no caminho do Cepo, mato que voltou mais baixo, uma vigilância renovada que deu origem ao programa Aldeias Seguras da Proteção Civil. Na padaria A Branca, a D. Alice lembra-se de ter guardado os documentos na máquina de lavar roupa, gesto que se tornou lenda local.
Ao cair da tarde, quando a luz rasante dourar os telhados de telha marselha em Vilar e o fumo das lareiras voltar a subir direito no ar parado, resta o som da água na Ponte da Víbora — constante, frio, indiferente às estações.