Artigo completo sobre Rio Douro: aldeia de granito a 701 metros de altitude
Rio Douro em Cabeceiras de Basto, Braga: 816 habitantes, festas tradicionais como as Papas de São Sebastião e produtos DOP das Terras Altas do Minho.
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O granito das casas reflete o sol da manhã como se fosse pão torrado — dourado por fora, branco por dentro. A 701 metros, o frio de Janeiro não pede licença: entra pelas pinças dos sapatos e faz-nos dançar o valsa no chão da igreja durante a missa das Papas. Já em Agosto, o calor é um cobertor de lã molhado: pesa, abafa, mas ninguém se queixa porque é sinal de milho a crescer e de vinho a fermentar.
Dizem os números que cá moram 816 almas. Digo-vos eu: são 816 que conhecem o nome do cão do vizinho, a altura da relva do outro lado da estrada e que horas o Sr. Arménio liga o trator para ir buscar leite à Cavez. As catorze casas de férias são os filhos que emigraram e agora voltam em Julho com os netos a falar francês e a pedir "papas de abóbora, mas sem dentes de alho, please".
O calendário que não se compra no papelaria
Janeiro é São Sebastião e é obrigatório comer papas de milho em pé, com a colher de pau, mesmo que o vento norte te faça chorar os olhos. Em Agosto, Nossa Senhora dos Remédios arrasta gente de Vila Real para cá — e não é pela fé, é pelas bifanas da tia Albertina que ela faz no pátio da escola, numa frigideira maior que a roda do tractor do meu tio. As festas são o nosso Facebook: encontramos o primo que não víamos há dez anos, sabemos quem está divorciado, quem engordou, quem comprou carro novo.
A carne que vem com morada
Quando vos disser que comi carne Barrosã, não imaginem vaca qualquer. Imaginem a Clementina — sim, tem nome — que pastou durante sete anos nos lameiros do Outeiro, onde o vento é tão mau que até as pedras se queixam. A gordura dela é amarela como o sol de Outubro e derrete na grelha como manteiga num tacho de caldo verde. O mel? É do Júlio, que tem colmeias junto ao castanhal: prova a urze, prova a chuva, prova a Resinela que ele ainda vai lá aos sábados de manhã vender nos portões.
O vinho é verde, sim, mas não pensem em garrafas com fitinhas. Aqui é no copo de cerveja que o Zé Manel guarda só para os amigos, tirado da pipa que o pai comprou em 1973. Tem uma acidez que te faz pestanejar como quando a mãe te apanhou a fumar às escondidas.
A altitude que nos faz falta quando saímos
701 metros não são só para postais. São para o nevoeiro de Outubro que não deixa ver o poente até às dez da manhã, fazendo com que o café Central abra mais tarde porque "o pessoal não se arrisca a descer a estrada". São para a geada de Dezembro que transforma a erva num tapete de vidro — e que o Turista de Lisboa acha que é neve, mas nós sabemos que é só o céu a brincar connosco.
Caminhar aqui é trocar cumprimentos com cada mula que encontras: "Bom dia, Sr. António", "Boa tarde, dona Rosa", "Olha, já foste à Cavez buscar o medicamento?". Os caminhos de xisto rangem como velhos conhecidos — e quando o vento traz o cheiro a esturro, sabemos que o Zé do Telhado está a queimar silvas no quintal.
O silêncio que não se vende
Quando o sol se põe atrás do Marão, o silêncio é tão grosso que se pode cortar com a faca do pão. Mas não é vazio: tem dentro o ranger da porta do Celestino que vai fechar as galinhas, o murmúrio da televisão da D. Alda que insiste em ver o Jornal da Noite aos berros, o tique-taque do relógio de parede que o meu avô comprou no mercado de Fafe.
Não há pressa, é verdade. Mas também não há descanso: é preciso regar o tomateiro antes que o gato do vizinho o arranque, é preciso ir buscar lenha para a lareira porque "hoje é sexta e vem o Filipe de Lisboa, que tem frio até no Verão".
Rio Douro não é um sítio onde se vai. É um sítio onde se fica — nem que seja só mais cinco minutos, nem que seja só mais um copo de vinho, nem que seja só mais uma história do tio António sobre o tempo em que a estrada era de terra e ele ia ao baile de Cavez a cavalo.