Artigo completo sobre Agilde: onde o sino e a vinha marcam o tempo
Conheça Agilde em Celorico de Basto, Braga: freguesia de colinas cultivadas, romarias ancestrais e tradição viva a 460 metros de altitude no coração do Tâm
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O sino da igreja de Santa Eufémia não marca só as horas: avisa que é hora de o forno da padaria estar quente e de se ir beber um copo antes de fechar o bar do Júlio. São nove quilómetros quadrados de vale, mas basta um grito para o outro lado ouvir. Dizem que o nome vem do latim agilis, e faz sentido: por estas ruas até os cães têm pressa de chegar à praça antes que o sol quente demais.
O que fica depois das festas
A romaria da padroeira é em Agosto e durante três dias a aldeia engorda de gente que já mora no Porto mas ainda traz os filhos "ver o que é um espetáculo". Na missa de manhã, a igreja fica pequena; depois, a fila para o rojão dá volta ao cemitério. Não há ementa: pergunta-se ao irmão mais velho onde está o "pessoal do prato". Se for tempo de sarrabulho, lembre-se de levantar a mão antes de servirem a segunda dose — senão fica só com o cheiro.
O resto do ano, a conversa corre no balcão do Minipreço ou junto às traseiras da Junta, onde o pessoal da lavagem dos cursos de água vai trocando notícias sobre quem vendeu o terreno e quem ainda aguenta as vinhas. São 128 pessoas por km², sim, mas o número que interessa é o de telefones que ainda atendem à primeira chamada.
Trilhos sem placas
Do largo da igreja, siga a estrada de terra abaixo, vire à direita quando sentir cheiro a silvas esmagadas e continue até ouvir o rio. É ali que o Tâmega começa a mostrar-se, mesmo sem cartaz. Leve sapatos que não importem de molhar: há passos de pedra escorregadios e, se cair, o melhor é rir antes que o dono da quinta apareça a oferecer um bagaço "para esterilizar".
Subindo para o Viso, a subida puxa às pernas, mas a recompensa é um banco de madeira onde se vê a aldeia toda e onde, sem rede no telemóvel, se lembra que o silêncio também tem volume. A meio caminho há um carvalhal; em Outubro, os livores são doces se a águia não os tiver levado primeiro.
Onde se come (e bebe)
Há duas tascas: uma tem televisão sempre no Benfica, a outra fecha quando a dona vai levar a neta à escola. Em qualquer delas, o vinho vem num jarro de barro e não se pede marca. Se vir mesa com guardanapo de papel, sente-se: é sinal de que o rojão vem com couve crocante e a batata a murro feita na hora. Para levar, o queijo da Barrosá vende-se no talho, mas peça logo o que está "de ontem", senão vai para casa com coisa já meio ressequida.
Como chegar e como escapar
De Braga, são trinta minutos pela A7 até à saída de Celorico, depois siga a indicação para "Águas Frias" e vire à esquerda quando a estrada começar a cheirar a eucalipto. Se vier de comboio, desça na estação de Guimarães e apanhe a linha de Basto; o autocarro demora o dobro, mas dá para ir lendo os papéis que o motorista pendura no para-brisas — avisos de falecimento e anúncio de aluguer de talhia.
Para sair, basta continuar a estrada para Ribas: chega-se ao Marão em vinte minutos e, se o dia estiver limpo, vê-se o mar — ou dizem que se vê. Mas, entre nós, o truque é virar antes: volte a Agilde ao entardecer, quando o granito fica cor de mel e o sino avisa que o Júlio vai fechar. Entra-se pelo beiral abaixo, pede-se um fino e deixa-se a conversa rolar. Não há monumentos, é certo, mas há o peso do tempo na pedra e o gosto do vinho que não engana. Com isso, leva-se a aldeia inteira no bolso — e ainda sobra lugar para o queijo.