Artigo completo sobre Basto: ritual de chocalhos e granito de 800 anos
Capela do Viso e ponte medieval marcam a paisagem de São Clemente, freguesia de altitude em Celorico
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O som dos chocalhos rasga o silêncio da madrugada. Nas ruas de São Clemente, entre o Natal e os Reis, grupos mascarados percorrem as casas com estrépito metálico, cumprindo um ritual que antecede a própria memória escrita da freguesia. O frio da serra morde a cara, o bafo condensa-se no ar, e o granito das fachadas reflecte a luz amarela das lamparinas. A 582 metros de altitude, Basto (São Clemente) acorda devagar, como quem não precisa de apressar o dia.
O granito que guarda o tempo
A Igreja Matriz ergue-se no centro da povoação desde pelo menos 1258, quando o Inventário de Rendas do Bispado de Braga a referiu pela primeira vez. O corpo românico foi sucessivamente reformado nos séculos XVI a XVIII, mas a espessura das paredes e a frieza da pedra denunciam a idade original. Dentro, a talha dourada do retábulo barroco brilha sob a luz de velas. No museu de arte sacra — visitável mediante marcação na câmara municipal — peças de ourivesaria e imaginária contam os 800 anos de devoção a São Clemente, padroeiro da paróquia. Nas imediações, cruzeiros setecentistas montam guarda junto ao adro, testemunhas mudas das procissões que ainda hoje atravessam a calcada irregular.
Junto ao Ribeiro de São Clemente, a ponte medieval de arco único conserva os paramentos românicos. A água corre límpida sobre o leito de granito, formando pequenas cascatas que desaguam em poços onde, no Verão, ainda se mergulha. O padre Joaquim Augusto da Silva, pároco durante 40 anos até 1923, mandou plantar choupos ao longo da ribeira para dar sombra aos alunos da escola paroquial que ele próprio fundou. Algumas dessas árvores ainda resistem, troncos retorcidos pela idade.
A serra que se vê de sete freguesias
A Capela de Nossa Senhora do Viso ergue-se numa elevação que domina a freguesia e se avista de sete terras vizinhas. Durante décadas, serviu de vigia contra incêndios florestais — a localização estratégica permitia detectar fumo antes que as chamas ganhassem força nos bosques de carvalho-alvarinho. No primeiro domingo de Maio, a romaria anual arrasta centenas de devotos num trilho de três quilómetros desde a igreja matriz até ao santuário. A procissão sobe a encosta, os cânticos tradicionais misturam-se com o canto dos pássaros, e lá em cima, na missa campal, o vento traz o cheiro a mato e a resina aquecida. Depois, o leilão de oferendas e o piquenique colectivo estendem-se pela tarde.
O percurso pedestre do Viso, circular de oito quilómetros, parte da igreja e segue marcas amarelas até ao santuário, descendo depois ao Poço Negro — remanso de água fria onde o ribeiro forma uma piscina natural entre rochas musgadas. O regresso faz-se pela vereda dos espigueiros, onde se concentram dezenas destas estruturas de granito, algumas com datas gravadas de 1789. A zona integra área de protecção especial para aves de rapina: o milhafre-real e o abutre-do-egipto planam em círculos lentos sobre os vales.
Fumeiro, mel e vinho verde
A Carne Barrosã DOP chega à mesa estufada ou grelhada, acompanhada de migas de pão ou batatas fritas. Nas casas e nos raros restaurantes familiares, o cozido à portuguesa incorpora o fumeiro da serra — chouriço de vinho, salpicão, morcela de arroz —, produto das matanças que ainda se fazem em Janeiro. A vitela assada no forno de lenha, regada a vinho verde da sub-região de Basto, repete-se nos almoços de domingo. O Mel das Terras Altas do Minho DOP aparece em sobremesas caseiras, nos bolinhos de noz e no pão-de-ló de São Clemente, receita transmitida entre gerações. Na feira mensal de gado e artesanato, realizada no primeiro sábado de cada mês junto ao adro, vendem-se estes produtos, além de queijos, enchidos e vinho verde de pequenas quintas familiares.
Na Sexta-Feira Santa, São Clemente é a única freguesia do concelho a usar um tambor de casca de carvalho na procissão do Senhor Morto. O rufar grave e abafado ecoa nas ruas estreitas, diferente de qualquer outro som. É esse timbre — madeira viva a vibrar contra madeira morta — que fica na memória de quem assiste, um vestígio sonoro que nenhuma outra terra reproduz.