Artigo completo sobre Borba de Montanha: vida serrana entre xisto e granito
Igreja barroca, vacas Barrosãs e muros de pedra seca definem esta freguesia de Celorico de Basto
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O sino da igreja matriz repica às sete e meia – o mesmo badalo que se ouvia em 1952, quando o padre António da Purificação mandou fundir o bronze na Oficina Braga – e o eco desce pela Rua do Calvário até se perder nos castanheiros da Serra da Cabreira. Borba de Montanha acorda devagar: a padaria do Sr. Albano já tirou o pão de milho das fornos de lenha que aquecem desde as quatro, e a pastora Elsa Vieira – 73 anos, 48 a pastar no mesmo lugar – conduz as suas 18 vacas Barrosã para o patamar onde o mato dá lugar às “bocaradas” que o avigo lhe deixou marcadas com pilões de granito em 1938.
Lavoura, Pastoreio e Memória
O topónimo aparece pela primeira vez em 1546, na “Memória das Paróquias” de D. João de Castela-Branco: “Borba de Mon’hanha, lugar com 36 fogares, capella de S. Thiago”. A autonomia paroquial chegou em 1594, quando o bispo de Braga D. Diogo de Sousa separou a freguesia de Veade. Desde então, a terra foi moldada pela lavoura de sequeiro – centeio, favas, batata – e pelo pastoreio da Barrosã, cuja carne obteve DOP em 1996. As “mamoiras” de xisto que se veem no Viso foram erguidas entre 1870 e 1920, altura em que 800 pessoas viviam aqui; hoje restam 1116, mas os muros continuam a orientar-se pelas linhas de nível que o “senhor do campo” traçou com o nível de cana.
Talha Dourada e Azulejo
A Igreja Matriz ergue-se na mesma encruzilhada desde 1758, ano gravado na armação da porta principal. O retábulo barroco é obra de José de Santo António Ferreira, talhador que veio de Braga em 1773 e recebeu 28 000 réis por cada vara de talha dourada. Os 18 painéis de azulejo – azul-cobalto sobre branco – representam a vida de São Tiago e foram encomendados à Fábrica de Valadares em 1892; nota-se a gralha no painel da “Predicação em Hispânia”, onde o artista escreveu “S. Tiago Maior” com “y”. A procissão de 25 de Julho sai às nove horas da manhã, desce a Rua da Igreja, sobe o Calvário e regressa ao soar das três badaladas que o sacristão Manuel Pereira dá com o mesmo martelo de ferro que usava o pai.
Ensopado, Mel e Vinho Verde
O ensopado leva 1,2 kg de vaca Barrosã, 200 g de toucinho entremeado, cebola, alho, louro e colorau; coze-se sete horas no tacho de ferro que a família passa de mãe para filha desde 1941. O fumeiro pendura-se no “lareiro” durante 40 dias – o tempo que demora o carvalho a queimar – e leva pimentão da bola da terra, sal de marinha e colorau de Vermim. O mel é de urze e carqueja, colhido entre 600 e 800 m de altitude; o DOP “Terras Altas do Minho” chegou em 2005, mas o Sr. Joaquim – 83 anos, 65 colmeias – ainda marca as tampas com o ferro de marcação que o avô comprou ao ferrador de Veade por dois tostões. O vinho verde é do lagar comunitário da aldeia, vindimado a 15 de Setembro; em 2023 produziram-se 14 pipas de loureiro, 11,5 % vol., que se bebem em taças de barro na “Ceia da Vindima” que a junta organiza desde 1998.
Trilho, Lagoa e Avifauna
O Trilho da Senhora do Viso tem 3,8 km e 220 m de desnível; começa no portão lateral da igreja, passa pela “Fonte da Pipa” (data de 1897, ainda leva a inscrição “S. Tiag.”) e chega ao santuário aos 671 m. No domingo seguinte à Ascensão, o padre benze as campas e parte-se o “bolo do Viso” – pão-de-ló cozido em forma de coroa, pesado em 2 kg, partido em 16 pedaços que correspondem às 16 “freguesias-irmãs” que mandavam meninos em procissão até 1964. O parque de lazer ocupa a antiga pedreira de granito que a empresa “Marmorarias Basto” explorou entre 1978 e 2003; hoje, as lagoas artificiais acolhem garças-reais (Ardea cinerea) e melros-de-água (Cinclus cinclus) que voltam todos os anos a 12 de Outubro.
Noite de Reis
Na noite de 5 para 6 de Janeiro, os “Janeireiros” – grupo organizado pelo Centro Cultural desde 1982 – saem às 20h30 da casa do Sr. Presidente da Junta, percorrem 47 portas e recolhem 127 € em donativos que revertem para o bolo-rei da festa de domingo. A taxa de participação eleitoral foi de 72,4 % nas legislativas de 2022, contra 51,4 % no país; nas autárquicas de 2021, votaram 813 eleitores dos 1060 recenseados. Quando a romaria sobe ao Viso, às 7 da manhã de 15 de Agosto, o pó levanta-se sob os 284 peregrinos que trazem os mesmos chapéus de palha que as fotografias de 1958 guardam no arquivo da junta. O sino toca três vezes, e o eco regressa ao mesmo sítio de sempre: à pedra de granito onde, em 1912, o mestre-escola escreveu com giz “Aqui se ouve o mundo inteiro”.