Artigo completo sobre Britelo, Gémeos e Ourilhe: três aldeias unidas
União de freguesias em Celorico de Basto onde o granito, as vinhas e as capelas definem a paisagem
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O silêncio da manhã quebra-se com o sino da igreja de Britelo, um toque que parece sair directamente do granito. Não é grave - é rouco, de ferro velho, e demora a abandonar o ar. Nas ravinas ainda se agarra a nevoeiro de noite, e quando sobe traz o cheiro do mato: urze molhada, terra de folha, fumo de casas onde ainda se acende a lareira antes das seis. A luz de Abril não desenha nada - fica-se pelos cimos das vinhas, onde os cavaleiros de madeira ganham sombras de gigantes.
Três nomes, uma só geografia
Juntaram-nos em 2013 mas quem cá vive continuou a dizer "vou a Gémeos" ou "é lá na Ourilhe". Britelo tem o café, o multibanco e o correio, mas cada lugar manteve a sua igreja e o seu adro - Britelo com o coreto pintado de azul, Gémeos com o plátano que entorna no Verão, Ourilhe com a escola encerrada desde 2006. As capelas são mais difíceis de encontrar: Senhora da Saúde fica no meio do nada, a seguir ao cruzamento onde o cabo de electricidade faz um barulho de chocalho quando venta. Não há placas. Quem não souber pergunta ao Sr. Armindo, que tem a banca de batatas ao domingo.
O calendário das romarias
Começam em Maio com as cruzes de flor espalhadas pelos caminhos. Em Agosto é a romaria da Senhora do Viso - os carros estacionam na estrada até ao Viso de Jorna, e quem vai a pé sobe pela vereda onde há urtigas. O cheiro é a sardinha queimada, a cebola preta, a bagaço que se bebe às escondidas. Não há cânticos em latim - há o acordeão do Zé Manel que toca "Fui ao Jardim da Celeste" até de madrugada, e os peregrinos que voltam aos saltos pela ladeira abaixo, segurando os sapatos na mão.
Vinho verde e carne barrosã
O vinho é branco, enche garrafões de cinco litros que se levam ao restaurante "O Torga" em Gémeos. O tinto só se faz nas casas - é forte, deita-se uma colher de chá no prato de sopa. A carne barrosã vem da Quinta do Pego, não está nos menus: pergunta-se ao patrão se há, e ele vai ao congelador. Os rojões comem-se no prato de barro, com a gordura a escorrer para o pão. As papas de sarrabulho só no Inverno, quando a matança dá o sangue. Os doces conventuais não existem - há é bolinhos de noz da Dona Aurora, que deixa a porta aberta e vende por debaixo do pano.
Caminhos entre vinhas
O trilho do Tâmega começa em Britelo, passa pela levada onde os pés afundam em lama depois de Dezembro. Não há placas - há marcas de tinta amarela nos postes de electricidade. Atravessa-se o cabo de água de Gémeos, onde as crianças se atiram de cuecas no Verão. Sobe-se depois por entre eucaliptos que rangem com o vento, e quando se chega ao miradouro vê-se Ourilhe lá em baixo, com as ruas em ziguezague e os telhados de ardósia a brilhar com a chuva. O silêncio só se parte com o cão do Sr. Quim, que ladra mas não morde.
Ao entardecer o sol não incendeia nada - fica-se pelo topo do souto, onde as castanhas ainda não abriram. O granito fica cinzento, as nuvens descem até à altura das antenas, e nas cozinhas acendem-se as luzes de testa. O cheiro é a fumo de carvalho, a toucinho frito, a roupa que não secou na corda. O sino não toca mais - à noite é a campainha do café que soa quando alguém enterra o copo.