Artigo completo sobre Caçarilhe e Infesta: luz barroca e granito medieval
União de freguesias em Celorico de Basto onde a história se inscreve em cruzeiros e pontes
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A luz da manhã entra oblíqua pela porta lateral da Igreja Matriz de São Mamede, atinge o retábulo barroco e acende o dourado da talha como se tivesse acabado de ser aplicado. É um fenómeno diário que dura vinte minutos, entre as nove e meia e as dez da manhã, e que poucos vêm assistir — porque ninguém vem de propósito, é só quem por ali passa nessa hora e ainda não tem pressa para o café. O silêncio dentro da nave amplifica o ranger das tábuas do soalho e, lá fora, o eco distante de um sino que marca as horas na freguesia vizinha. Infesta acorda devagar, como quem não tem pressa de chegar a lado nenhum.
A união administrativa de Caçarilhe e Infesta, formalizada em 2013, juntou duas paróquias que já partilhavam séculos de história agrícola e vinicultora. Caçarilhe, documentada como "Cazarelhe" em pergaminhos medievais, deve o nome aos carvalhais que ainda pontuam a paisagem a norte. Infesta, citada em forais de 1258, carrega no topónimo o latim infesta — lugar de disputas, fronteira instável entre o condado portucalense e o leonês. Hoje, os 510 habitantes distribuem-se por lugares de nomes breves — Cimo de Vila, Rande, Moalde — onde os espigueiros de granito guardam o milho e os muros de xisto delimitam propriedades que passam de pais para filhos há gerações. É este o sítio onde um homem te pode dizer que a parede do quintal é do bisavô e ainda parece que foi ontem.
O granito que conta histórias
O cruzeiro de Caçarilhe, erguido em 1753, tem gravado na base uma inscrição latina rara no Minho: In hoc signo vinces. Alguns investigadores atribuem-na a um oficial napoleónico que, refugiado após a invasão francesa, terá encomendado a obra. Verdade ou lenda, o cruzeiro permanece no largo da aldeia como testemunha silenciosa de quem passou e ficou — ou de quem passou, bebeu um copo e foi-se embora, deixando a pedra a falar por ele. A poucos quilómetros, a Ponte de Pedra sobre o rio Olo — obra setecentista de alvenaria — serviu o traçado da estrada real entre o Porto e Braga e, já no século XX, de cenário ao filme A Caça de Manoel de Oliveira, rodado em três dias com figurantes recrutados entre os habitantes locais. Ainda hoje há quem diga que o Manoel pediu ao Zé do Carmo para repetir o gesto de atirar a pedra, mas o Zé, distraído, atirou-a mesmo — e foi aquela tomada que ficou.
Na Capela do Senhor da Boa Fortuna e da Boa Morte, em Moalde, celebra-se no domingo de Pentecostes uma peregrinação seguida de leilão de bolos e folar. O ritual mantém-se inalterado: as mulheres trazem os folares recheados com ovo de chocolate, os homens lançam as ofertas e, ao final da tarde, parte-se o pão de milho ainda morno. A capela foi fundada no século XVIII pelo Padre Manuel da Silva Barros, bispo auxiliar de Braga, que mandou gravar na fachada um pedido de protecção aos viajantes — uma prece que ressoa especialmente no inverno, quando o nevoeiro fecha o vale e a visibilidade se reduz a metros. É nessas alturas que o leilão fica mais curto, porque ninguém quer ficar para as tantas a tapar o bolo com o casaco.
Vinho, sangue e carvalho
O sarrabulho à moda de Caçarilhe prepara-se com sangue de porco, pão de milho embebido e cheiros-da-serra colhidos nos matos de giesta. Serve-se fumegante, em malgas de barro, acompanhado de vinho verde tinto — castas Azal, Loureiro e Arinto cultivadas nas encostas viradas a sul. A Carne Barrosã DOP chega à mesa em rojões estonados em vinho branco e louro, ou em cabrito assado em forno de lenha. Nos anos pares, no primeiro fim-de-semana de julho, a "Festa do Milho e do Barrosã" traz à praça de Infesta a exposição de gado da raça autóctone, prova de doce de leite e demonstração de moagem em moinho de água. É o único sítio onde podes ver um tractor estacionado ao lado de uma vaca com olhar de quem já viu tudo — e ainda assim te deixa tirar uma fotografia.
O Mel das Terras Altas do Minho DOP, produzido nas colmeias que pontuam os soutos, tem cor âmbar e sabor intenso a castanha. Compra-se directamente aos apicultores ou no mercado mensal de Infesta, realizado no primeiro sábado de cada mês, onde também se encontra queijo de cabra transmontano e aguardente de vinha velha envelhecida em carvalho. O mercado é pequeno — cabe todo na esplanada do café — mas é ali que o António te vai dizer que a aguardente do ano passado foi a melhor de sempre, e que se não beberes um copo é como se não tivesses cá estado.
Caminhar o Olo
O trilho "Caminho do Olo" (PR3 CB) percorre oito quilómetros entre Infesta e a Ponte de Pedra, atravessando lameiros onde pastam cavalos Garranos e margens onde os salgueiros mergulham os ramos na corrente. De manhã cedo, antes das dez, o nevoeiro ainda cobre o leito do rio e o som da água multiplica-se em ecos. A ribeira de Rande, que nasce no interior da freguesia, alimenta moinhos de pedra que já não moem mas permanecem de pé, portas abertas, mecanismos cobertos de musgo. É um sítio onde podes entrar, bater palmas e ouvir o eco da tua própria voz a perguntar por que é que parou tudo — e ninguém te responde, porque as pedras não falam.
Do miradouro do Cimo de Vila avista-se, em dias límpidos, o vale do Tâmega e o perfil recortado da serra do Marão. É um dos pontos de passagem obrigatória do circuito de geocaching que distribui seis caches pela freguesia — coordenadas partilhadas em fóruns de aventureiros de fim-de-semana que chegam de carro, mapa no telemóvel, e regressam com fotografias de espigueiros e muros de xisto. Se encontrares um deles, perguntam-te se há por aqui sítio para comer. Dizes-lhes que é no café da vila, mas só servem sopas ao almoço — e eles ficam contentes, porque é mesmo isso que queriam ouvir.
Na Capela de São Cristóvão, guardada na Quinta do Dourado, repousa uma imagem gótica do santo com 1,20 metros de altura. Trouxeram-na, dizem, peregrinos de Santiago de Compostela, e só sai em procissão se chover na véspera da romaria — tradição que transforma a meteorologia em liturgia e a espera em acto de fé. É como o Zé Manel diz: se não chover, fica para o ano. E se chover, também — porque ninguém se quer molhar.