Artigo completo sobre Ribas: vinhas e granito junto ao Tâmega
Freguesia de Celorico de Basto preserva tradição agrícola entre socalcos e património barroco
Ocultar artigo Ler artigo completo
O fumo não sobe — fica preso à roupa que se estende ao pregar da manhã. Em Ribas, o cheiro a lenha queimada entranha-se na garganta e lembra-me que a minha avó ainda acende o lume às seis, embora more sozinha. As vinhas descem à beira-rio, sim, mas olhe-se bem: os socalcos estão a desaparecer, um a um, enterrados silenciosamente pela hera que ninguém arranca há anos. A 513 metros, o ar fica mais fino quando se sobe a pé desde o Viso; quem vier de carro não nota, mas quem vier a pé sente o coração a bater-lhe nos ouvidos.
Ripas, ripas — o nome repete-se nos documentos de 1258 como quem escreve à pressa. Dizem que vem do latim, mas eu cá sei que vem do som que o rio faz quando traz pedras debaixo: riii-pa, riii-pa. Aqui, o Tâmega não é bonito: é útil. Bebe-se dele, rega-se com ele, ameaça-se com ele quando transborda em dezembro. Dos 900 que dizem o recenseamento, metade já está noutros sítios — uns em Paris, outros no Porto, os mais velhos no cemitério que fica por cima da escola fechada. Contam-se mesmo 98 jovens? Contam-se os que cá nasceram ou os que cá dormem aos fins-de-semana?
Igreja, cemitério e o café que não existe
A Igreja de São Tiago tem a porta principal presa com arame porque o senhor padre perdeu a chave há três anos. A torre perdeu o relógio em 1987 — nunca mais foi arranjado —, mas o sino ainda toca às horas certas porque o Aníbal sobe lá acima de dois em dois dias e puxa a corda com a mão direita, a que lhe resta. A praça é de granito, sim, mas é também de lama quando chove, e chove muito. A capela de São Sebastião tem o teto a cair; dentro há ninhos de andorinha e um cheiro a urina de raposa que não sai com nada. As pontes de pedra aguentam-se porque ninguém as repara: assim que uma pedra cai, outra qualquer encaixa-se por baixo, sem cimento nem areia.
Festas que já não cabem na aldeia
Dia 25 de julho, missa campal: três dezenas de cadeiras dobráveis, metade vazias. A procissão já não dá a volta completa — falta gente para carregar a imagem. As concertinas ainda se ouvem, mas vêm de fora: o filho do ferrador toca agora numa banda de heavy-metal em Guimarães. Subida à Senhora do Viso: são sete quilómetros a pé, o último de ladeira. Quem sobe leva uma garrafa de água e vai parando para respirar. No Entrudo só aparecem máscaras de plástico compradas no Chinese — as de papel duravam pouco, molhavam-se logo. São Martinho é no adro da igreja, mas as castanhas são de Espanha e o vinho novo está ainda a fermentar; quando abres a torneira, espuma branca salta-te para a camisola.
O que se come (e o que já não se come)
O fumeiro pendura-se na lareira, mas a maioria vai parar ao frigorífico antes do tempo: os netos não gostam de cheiro a fumo, dizem que “sabe a velho”. A Carne Barrosã é certa, sim, mas custa caro — quando há, é no aniversário do pai ou quando vem o cunhado de França. O arroz de sarrabulho faz-se com sangue de porco congelado, que o matador já não vem à porta de casa. O pão de milho é comprado no Lidl, embalado a vácuo; o tradicional, amarelo e pesado, só a Tirosa o faz e já tem 84 anos — quando se cansar, acabou. Mel há, mas não é DOP: é do Zé Mário, que coloca as colmeias no Viso e vende a cinco euros o quilo, potes de iogurte lavados.
Trilhos que levam a casa de ninguém
Os caminhos estão limpos até às malhadas do costume; depois, a giesta fecha tudo. Os marcos de xisto desapareceram — serviram para fazer a parede do churrasco do outro lado da estrada. Já não se vê javali à luz do dia, só as batatas arrancadas durante a noite. Os melros cantam, mas competem com o rádio do tractor que o Albano deixa ligado para não se sentir sozinho. Os ribeiros correm, sim, mas levam garrafas de plástico e latas de Super-Bock; a água fica turva depois de cada temporal, e ninguém se lembra de a beber.
Quando o sino toca ao meio-dia, as crianças que restam já estão dentro de casa, de olhos no telemóvel. O som sobe o vale, mas não encontra tantas paredes de granito a devolver o eco. Ribas continua aqui — nem maior nem mais pequena, só mais silenciosa.