Artigo completo sobre Palmeira de Faro: onde o Atlântico encontra o Minho
Freguesia de Esposende entre vinhas verdes, granito antigo e o Caminho de Santiago da Costa
Ocultar artigo Ler artigo completo
O granito escuro das casas antigas guarda o cheiro a lenha molhada de ontem. Quando o nevoeiro sobe do Cávado, as vinhas parecem flutuar — filetes de verde-escuro que se agarram aos cimos de granito onde crescem as primeiras amoras. Aqui não há "altitude média de 107 metros": há antes o ponto onde a barriga da terra começa a descer para a praia de Ofir, e onde o vento traz primeiro o sal e depois o rosmaninho.
Entre o mar e a vinha
O Parque Natural é apenas o nome que lhe pusram. O que importa é que os cercos de pedra ainda seguram as vacas de Narciso, que o seu pai já chamava de "muito boa para leite" — e que, quando ela se escapa, sobe mesmo ao cimo do monte onde o pinheiro está partido pelo raio. As vinhas são de dona Emília: uvas de cem dias que ela descasca sentada à porta, com um alguidar de água salgada para afastar as moscas. O vinho que faz não tem "mineralidade discreta": é branco que se bebe gelado e deixa a boca a saber a noz-moscada e a maré viva.
Na rua de Baixo, o António — que tem 87 anos e ainda conduz a sua Datsun de 82 — conta que já não há crianças para apanhar a laranja do seu quintal. Mas basta esperar pelas três e meia da tarde: é quando o autocarro deixa cair os sete miúdos que ainda restam, e eles correm direitos à padaria comprar bolas de Berlim ainda quentes, que a D. Fernanda faz com a gordura do dia anterior.
No trilho dos peregrinos
O Caminho passa, sim — mas quem o percorre de verdade é o Sr. Aníbal, que vai diariamente de mochila às costas levar o jantar à filha em Belinho. Diz que é "exercício". Os peregrinos com bastões aparecem em maio, cheios de penas no chapéu e vontade de falar. Param no café da Lurdes, bebem um imperial rápido e perguntam se ainda falta muito para Esposende. Ela responde sempre: "São 40 minutos, mas leve 50 que o caminho está a subir e o sol é tramado."
A Festa de São João não tem "calendário festivo local" — tem é a procissão em que o padre vai de barco pela ria acima, com a imagem de São João ao colo, e as pessoas acendem velas nos cais. Depois há sardinha na brasa, sim, mas também rojões com arroz de sarrabulho que o Cláudio faz num tachão de ferro de um metro de diâmetro. Quando as fogueiras baixam, sobra sempre um saco de castanhas do ano passado que a D. Alda traz na algibeira — diz que é para "os estranhos provarem o inverno".
O verde que permanece
O que resiste não é "paisagem" — é o cheiro a urze logo depois da chava, o som das rãs que se ouve do campo do Fidalgo quando a maré está cheia, e o facto de ainda se poder ir descalço até às dunas sem levar com nenhum condomínio. Não há miradouros, é certo — mas há o plátano do Largo da Igreja onde o Zé Mário guarda as chaves do campo de futebol, e onde se juntam os homens à noite para beber uns finos e ver o Benfica.
Quando o sol se põe atrás do pinhal da Apúlia, a luz fica dourada como mel líquido. É então que se ouvem as primeiras corujas, o ranger da porta do Celeiro do Povo, e o cheiro a pinho queimado que vem da casa do Sr. Joaquim — ele ainda aquece a água na salamandra para o banho. Palmeira de Faro não é "presente", como quem diz que é suficiente. É antes um sítio onde ainda se pode ir para a terra do vizinho pedir uma mão de couves — e levar também um ramo de salsa, porque aqui ninguém regateia cheiros.