Artigo completo sobre Arões: pedra, vinhas e tradição nas encostas de Fafe
Freguesia minhota com monumentos classificados e produção de Vinho Verde em socalcos centenários
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A calcada sobe entre muros de granito da Rua do Cruzeiro até à Igreja Matriz de São Romão, construída em 1748. O som dos passos ecoa numa rua com 2,5 metros de largura, ladeada por casas de pedra que guardam portais trabalhados e brasões desgastados. Arões (São Romão) estende-se por encostas a 320 metros de altitude, território onde vivem 3.293 pessoas numa área de 5,83 km². A densidade organiza-se em núcleos compactos separados por campos de milho e vinha, manchas verdes que respiram entre o casario.
Pedra que fala
A Igreja Matriz de São Romão, Monumento Nacional desde 1977, testemunha séculos de arquitectura religiosa. O granito cinzento das paredes conserva 18 graus no interior mesmo em dias de 30 graus exterior, e a luz entra filtrada por vitrais do século XX que projectam manchas coloridas no chão de lajes gastas. O Espigueiro de Arões, Imóvel de Interesse Público desde 1982, completa o conjunto patrimonial com 6 metros de altura em pedra e madeira de carvalho.
Vinhas em socalcos
A sub-região do Vale do Ave estende-se até estas encostas, e os socalcos recortam a paisagem em linhas horizontais que acompanham as curvas do terreno. As vinhas plantadas em ramada criam um verde intenso na Primavera e Verão, que vira dourado no Outono antes da vindima em Setembro. O vinho que daqui sai carrega a acidez fresca característica, com 11% de álcool e notas cítricas que pedem bacalhau grelhado ou rojões à moda de Fafe. Nas 47 adegas familiares registadas, o mosto fermenta em cubas de inox ou em tonéis de carvalho de 500 litros.
À mesa
A Carne Barrosã DOP e o Mel das Terras Altas do Minho DOP chegam às mesas locais vindos das serras circundantes. A carne, de bovinos criados em regime extensivo nas pastagens de 800 metros de altitude, apresenta uma textura macia e um sabor intenso, melhor apreciada grelhada sobre brasas de carvalho no Restaurant O Moinho. O mel — espesso, âmbar-escuro, com cristais finos — vem de 23 produtores de colmeias instaladas no Vale do Bestança. O fumeiro da Casa das Chouriças guarda 200 chouriças e 80 presuntos que curam durante 12 meses ao fumo de carvalho.
Quotidiano entre gerações
472 crianças e adolescentes até aos 14 anos habitam Arões — número que contrasta com os 581 idosos. As ruas enchem-se às 16h30 quando a Escola Básica do 1.º Ciclo de Arões despeja grupos de miúdos que correm entre os muros. Ao domingo a missa das 11h junta três gerações na Igreja Matriz. Há um único alojamento registado — a Casa do Ribeiro - sinal de que o turismo aqui não se industrializou. Quem fica, fica em casa de família ou passa apenas de caminho, a explorar o concelho durante as Festas de São Romão em 9 de Agosto.
O granito dos portais continua frio ao toque mesmo quando o sol bate em cheio nas fachadas viradas a sul. Dentro das casas antigas, o ar mantém-se fresco graças às paredes de 80 centímetros, e o cheiro a lenha queimada persiste nas cozinhas onde o forno ainda aquece para cozer pão às 6h da manhã. Arões não precisa de reinventar-se — continua a ser o que sempre foi, com a paciência das coisas bem plantadas na terra.