Artigo completo sobre Cepães e Fareja: vida rural entre granito e vinhas
União de freguesias em Fafe preserva tradição agrícola e identidade medieval no coração do Minho
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O cheiro a lenha queimada que desce das chaminés ainda é o primeiro sinal de dia em Cepães. Na mercearia-«O Ganso» abre às 7h30 e, à porta, o Sr. Albano já mede o tempo pelo café bica que bebe há 42 anos no mesmo balcão. A 2 km, em Fareja, o sino da igreja de S. Vicente — fundada em 1593, como prova a pedra com o brasão de armas lavrado na sacristia — bate nove pancadas, não pela hora, mas porque é assim que o sacristão-mor, o Sr. Joaquim Moreira, de 78 anos, aprendeu com o pai.
Duas freguesias, uma junta
Desde 29 de janeiro de 2013, quando o Governo publicou a reorganização administrativa, Cepães (1 167 habitantes em 2011) e Fareja (1 015) passaram a partilhar o mesmo orçamento: 197 000 € em 2023, segundo a Mapa. A sede ficou na antiga escola primária de Cepães, construída em 1957 e ampliada em 2003; lá dentro, a placa de 1962 que homenageia o Professor Cândido Mota — natural da aldeia, deputado à Assembleia Nacional entre 1945 e 1969 — continua no corredor, agora ao lado do cartaz das assembleias de freguesia que se realizam às terças, depois do trabalho.
A terra que paga contas
Dos 747 hectares do território, 68 % estão classificados como uso agrícola (Dados do Pordata, 2022). O cadastro mostra 23 explorações com gado barrosã — 312 vacas registadas na Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, número que caiu para 278 depois da seca de 2022. O matadouro cooperativo de Fafe, a 8 km, paga 5,20 €/kg ao produtor por novilho certificado; o custo de produção ronda os 3,80 €, deixando uma margem que justifica o arrendamento de pastos nos baldios de Fareja, pagos 35 €/hectare/ano à Junta. O mel é outra conta que fecha: 28 apicultores inscritos na Cooperativa de Fafe colocaram no mercado 1 840 kg em 2023, cotados a 9 € o quilo no grosso, duplicando receita face a 2019 graças à DOP concedida em 2021.
O calendário que se marca a lápis
- 3 de maio — Dia da Cruz: missa campal na capela de N. S.ª da Saúde (Fareja), seguida de sardinhada; os 80 kg de sardinha são comprados na lota de Vila Praia de Âncora e pagos com as quotas do Centro de Pessoas Idosas (€ 2/mês).
- Segundo domingo de agosto — Festa em honra de S. Vicente: almoço coletivo no adro; cada familia leva a própria mesa e cadeira, a junta fornece 200 garrafas de vinho branco compradas à Adega de Guimarães a 2,10 €/litro.
- 24 de dezembro — Missa do galo: a procissão percorre 1,2 km entre Cepães e Fareja com o Menino deus levado por uma criança que tem de ter completado a primeira comunhão no ano; em 2023 foi a Matilde, 9 anos, neta do ex-presidente da Junta.
Entre o campo e a estrada nacional
A EN 206 corta a freguesia durante 3,4 km; antes da ligação A7-Fafe (inaugurada em 2011), era aqui que se engarrafavam os camiões com leite para a Lactogal. Hoje, quem segue para a N206-1 encontra o troço de 1,8 km em mau estado: a câmara orçamentou 180 000 € para 2024, mas a empreitada foi adiada. Enquanto isso, o tráfego desvia-se pela Rua do Carril, onde moram 17 pessoas e que, segundo o registo camarário de 1952, ainda era caminho de servidão para a mina de ferro de Romariz, encerrada em 1948.
Quando a noite cai, as luzes de LED — substituídas em 2020 com fundos comunitários (QREN: 34 560 €) — acendem-se automaticamente às 19h30 no inverno. Desde então, o consumo mensal caiu 38 %, o que permitiu à junta manter aberto o posto médico às quartas-feiras, hora que coincide com a chegada da carrinha da GNR para o «Programa Safe Village». São estes números — pequenos, certos, escritos nos cadernos de sessões — que sustentam o que a paisagem já diz: aqui, a vida continua porque alguém ainda faz as contas ao centavo e não deixa o fogo apagar.