Artigo completo sobre Castelo e Necrópole Medieval no Alto de Moreira do Rei
Fortificação do século X e dezenas de sepulturas na rocha marcam a paisagem de Fafe
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O granito emerge da terra como um nó na espinha dorsal da serra. No alto, as muralhas do Castelo de Moreira do Rei recortam-se contra o céu, testemunhas silenciosas de dez séculos de história. O vento sobe do vale do Ave, trazendo o cheiro a terra molhada e a humidade das matas de carvalho. Aos pés da fortificação, dezenas de sepulturas medievais escavadas na rocha formam um puzzle arqueológico — corpos que aqui repousaram entre os séculos X e XIII, quando este afloramento rochoso era centro de poder e fé.
A União de freguesias de Moreira do Rei e Várzea Cova nasceu em 2013 da fusão administrativa de duas comunidades com percursos distintos: uma, estratégica e medieval; outra, rural e pastoril. Moreira do Rei surge nos documentos no século X, quando D. Chamôa Rodrigues doou o seu castelo ao Mosteiro de Guimarães. Durante a Reconquista, D. Afonso Henriques reconstruiu a fortificação e concedeu foral à vila, transformando-a em sentinela do território recém-conquistado. O castelo, classificado Monumento Nacional em 1932, guarda uma particularidade rara: vestígios de fundição medieval de metais, actividade incomum numa estrutura defensiva portuguesa.
Necrópole entre pedras
A descoberta da necrópole medieval junto à antiga Igreja de Santa Marinha abriu uma janela para a intensidade da ocupação deste território. São 72 sepulturas antropomórficas talhadas directamente na rocha — uma das maiores concentrações do norte do país, identificadas durante escavações arqueológicas entre 2018 e 2020. Os arqueólogos da Câmara de Fafe trabalham na criação de um centro de interpretação que permita compreender como viviam, rezavam e morriam as gentes que habitaram estas encostas há mil anos. Caminhar entre as sepulturas é pisar um chão onde o granito guarda memória física dos corpos, cada cavidade esculpida à medida de um defunto anónimo.
Altitude e pasto
A freguesia estende-se por 2813 hectares de montanha suave, a uma altitude média de 559 metros. Várzea Cova manteve ao longo dos séculos a sua vocação agrícola e pastoril, território de pastagens onde o gado Barrosã — raça autóctone de pelagem castanha e cornos em lira — pasta em regime extensivo. A carne Barrosã-PDO chega aos pratos locais sob a forma de rojões à minhota, cabrito assado ou cozido à portuguesa. Nos vales, as colmeias produzem o Mel das Terras Altas do Minho DOP, denso e escuro, reflexo da flora de altitude — urzes, carqueja, castanheiros.
A paisagem é atravessada por pequenos cursos de água que descem em direcção ao rio Vizela, alimentando moinhos de pedra hoje desactivados mas ainda visíveis nos caminhos de terra batida. Entre Várzea Cova e Moreira do Rei, os trilhos rurais ligam capelas, espigueiros de granito e casas tradicionais de xisto. No Verão, as festas em honra dos santos padroeiros enchem os adros com música de ranchos folclóricos e arraiais onde o vinho verde corre fresco, jovem e levemente efervescente.
Vistas do alto
Subir ao castelo é obrigatório. Não pelos vestígios de muralha — escassos, mas suficientes para imaginar a estrutura original — mas pela vista que se abre sobre o vale do Ave. A 559 metros de altitude, o olhar percorre quilómetros de verde compartimentado, socalcos antigos, manchas de carvalho e castanheiro, aldeias pontuadas por torres sineiras. No Inverno, o nevoeiro sobe e engole tudo, deixando apenas o topo do afloramento rochoso emerso, ilha de pedra num mar de branco.
A Junta de Freguesia organiza visitas guiadas ao castelo e à necrópole mediante marcação. Não há multidões — a densidade populacional é de 58 habitantes por quilómetro quadrado, e 505 dos 1656 residentes têm mais de 65 anos. O silêncio é espesso, quebrado apenas pelo vento e pelo sino da igreja. Quando a luz da tarde rasga oblíqua sobre as sepulturas escavadas na rocha, as sombras desenham perfis humanos no granito, e é impossível não imaginar os rostos que um dia cabiam exactamente ali.