Artigo completo sobre Airão Santa Maria: vinhas, carne barrosã e romarias
Freguesia vinhateira perto de Guimarães onde o vinho verde e a tradição rural definem o território
Ocultar artigo Ler artigo completo
A cal das paredes descasca-se nas esquinas e, quando o sol bate de frente, o branco dói nos olhos. As vinhas não são “geométricas”; são muros de pedra que se perdem no cimo do monte, cada um com o nome do avô que o cavou — Padrão, Valinhas, Corgo da Rapa. Aqui não se fala em “fiadas”, fala-se em “ladras”, e quem não as souber contar não sabe onde começa o vizinho.
O vinho verde não se “prova na adega”. Bebe-se ao lado do lagar, num copo de jeito, enquanto o homem que pisou as uvas ainda tem as pernas roxas. É ácido, sim, mas o segredo é a azeda que vem do limoeiro da cunha: sem ela, a casta loureira perde a língua.
Carne que cheira a andar
A Barrosã pastou ontem no Chiqueiro do Meio; hoje está na corda da Amália, junto à estrada que sobe para Silvares. Quando o matador abre a porta do camião, o cheiro a estrebaria quente mistura-se ao fumo da chaminé. Não é “marmoreada” — é carne que teve de subir a serra para encontrar urze, que passou o inverno com a chuva no lombo. A gordura é amarela, não branca, e derrete-se na grelha de ferro antes mesmo de salgar.
Cruzes que se erguem às 4 da manhã
Em Serzedelo, na noite de 2 de Maio, os rapazes começam a erguer as cruzes às quatro, antes do galo. Os castanheiros ainda não têm folha, mas o pão de leite já está quente na padaria da Glória. Leva-se uma garrafa de aguardente na algibeira da camisa para esquentar quem segura a madeira; às sete, quando o sol corta o nevoeiro, a aldeia inteira cheira a cera derretida e a rosas brancas murchas.
Quando Guimarães apaga as luzes
Às dez e meia o autocarro 52 pára de madrugar. Quem desce traz na mala o almoço de fábrica — fiambre em fatias grossas, pão de forma, um pacote de leite magro. A estrada nacional 309 fica deserta, só o cão do Couto ouve o motor frio a arrefecer. As janelas acendem-se uma a uma, mas não é luz de candeeiro: é o bruxulear da televisão que ainda dá o Jornal da Noite em repeat. No fim-de-semana, as campainhas das igrejas disputam-se com os martelos das churrasqueiras improvisadas; o fumo sobe tão baixo que entranha-se nos lençóis que estendem no varal.
O vento das 18h traz o cheiro a silva e a mofo do pau-de-colecionador que o Tonho deixa a secar na cave. Não é perfume de vinha — é o cheiro de quem ainda guarda uvas para fazer aguardente de bagaço no forno do pão.