Artigo completo sobre Aldão: Silêncio de Granito Entre Muros e Hortas
Freguesia de 1278 habitantes mantém equilíbrio geracional e tradições religiosas perto de Guimarães
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A estrada entre Guimarães e Aldão sobe como quem vai à casa de banho no café do tio António — conhece-se de cor, não precisa de placas. São três minutos depois do cruzamento da Feiteira, onde o musgo ganhou juízo de uns muros que já viram o Napoleão passar (ou foi o camião do lixo, a memória é traiçoeira). Lá acima, a 257 metros, o ar fica mais fino e as casas de granito fingem que não viram o século XXIV chegar.
Dizem que aqui vivem 1278 pessoas. Digo-vos que são 1278 formas de dizer "bom dia" sem parecer turista. A densidade é de 824 habitantes por km², mas isso é conversa de papel — na prática, o que se sente é espaço para estacionar a carrinha à porta do café e espaço para os miúdos ainda jogarem à bola na rua sem levar com um Tesla em cima.
Entre a missa e a bifana
Em Maio, quando Serzedelo arma as Cruzes, Aldão vai todo. Não porque a cruz seja de Aldão, mas porque a bifana do Celestino é de Aldão e ele só faz na romaria. É como o futebol: ninguém quer saber do estádio, quer é do lugar na bancada onde o sogro guarda o lugar desde 1983. As bandeiras são as mesmas de sempre, os bombos os mesmos, o vinho verde da tia Albertina não engana — é branco, é verde, e se não tiveres cuidado engorda-te a barriga antes do fogo de artifício.
Carne que vem de lá de cima, vinho que nasce cá em baixo
A Carne Barrosã é transmontana, mas o forno é da Dona Lourdes. Ela mete-a lá dentro às sete da manhã, vai à missa, trata da horta, e quando o sacra-do-bispo acaba a carne está pronta para partir o pão. Serve-se com batata de "pai-não-quero-mais-uma" e couve que ela plantou onde antes o marido guardava o Trabant. O vinho verde é do terreno ao lado do cemitério — dizem que é o solo, eu cá acho que é a conversa dos defuntos que dá o gosto.
Há quatro sítios onde dormir. Três são casas de família que aproveitaram o sótão e uma é um apartamento onde o gato do prédio já entrou mais vezes que os hóspedes. Servem para quem quer ver Guimarães mas não quer pagar o estacionamento do centro nem ouvir os ingleses a cantar aos berros às três da manhã. Aqui à noite o que se ouve é o grilo que se enganou na nota e o cão do Basílio que ladra sempre que passa uma lua cheia.
Pedra que já lá está, verde que ainda se aguenta
Os muros são de pedra sem instagram. Fazem o serviço: seguram a terra, dão sombra ao vinho ao Domingo e servem de banco quando a cadeira do Monteiro parte outra vez. O granito é o mesmo de sempre, só muda o dono — ontem foi o avô, hoje é o neto que vende pão de ló no mercado e jurou que não deixa a casa cair. As hortas são quadrados de couve galega que sobrevivem à vontade de Deus e à preguiça de quem as rega. Em Agosto a água da fonte ainda sai gelada; leva garrafa, porque canudo é coisa de cidade.
A vida corre a diesel lento. De manhã vão-se os miúdos para a escola da dorna, ao meio-dia aparece o pessoal das fábricas de Vizela a pedir um café "pingado mas não muito", à tarde os velhos jogam sueca debaixo do plátano e fingem que não vêm o tempo passar. Ninguém espera visita, ninguém faz visita guiada. Quem vem, vem. Quem fica, arranja uma cadeira e fica sabendo que o lugar é este — entre o granito que fica e o verde que se aguenta.
Quando o sol se põe atrás do Monte da Penha, Aldão não pede likes. Limita-se a acender a luz da cozinha, a tapar o gato com o jornal e a guardar a roupa que ainda cheira a lenha. É isto. Se quiserem ver, venham. Mas trazem sapatos que não escorreguem na relva e deixem o drone em casa: o Sr. Adriano já disse que o próximo que apareça vai parar ao telhado com ajuda de uma azagaia.