Artigo completo sobre Azurém: o campus que transformou o granito minhoto
A freguesia de Guimarães onde 20 mil estudantes convivem com cruzeiros setecentistas e casas azuis
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O sino da Igreja Paroquial toca às nove e o som espalha-se sobre telhados. Não há montanhas para criar eco — a altitude ronda os 200 metros e o terreno suave abre-se para o vale do Rio Selho. O que o sino encontra é o barulho de uma freguesia em movimento: passos de estudantes, autocarro a travar, chávenas numa esplanada. Azurém acorda cedo com sotaques de todo o país — aqui vivem e estudam cerca de 20 mil alunos no campus da Universidade do Minho.
A cor azul que ficou no nome
O nome vem do latim Azurum — "casa azul". Caminhe pelas ruas antigas ao início da tarde e verá o granito das fachadas setecentistas a ganhar um cinzento-azulado, diferente da cal branca das construções novas. Documentos falam de Azurém desde o século XII. A grande mudança veio em 1975: o campus da Universidade do Minho transformou campos de milho em edifícios de betão e vidro. O mais marcante é a Reitoria, de 1975, com linhas retas que contrastam com os cruzeiros de granito do século XVIII espalhados pela freguesia.
Cruzeiros de flores e fogueiras de Junho
No terceiro dia de maio, homens e mulheres carregam cruzeiros de madeira cobertos de flores naturais pelas ruas de Serzedelo. A Festa das Cruzes mantém-se desde o século XVIII — os cruzeiros de pedra servem de estações ao percurso. Em julho, a Romaria Grande de São Torcato percorre 4 km desde Guimarães até à capela seiscentista na periferia de Azurém. À noite de São João, 23 de junho, fogueiras e sardinhas tomam as ruas. A 6 de janeiro, o Cortejo dos Reis encerra o ciclo festivo com máscaros a cantar janeiras.
Sarrabulho, rojões e o verde que se bebe
Na Adega da Vila, o menu é direto: rojões à minhota com arroz de sarrabulho. Carne de porco dourada na banha, arroz escuro com sangue e farinha. A Carne Barrosã DOP aparece em chanfana, cozinhada em vinho tinto. As broas de milho e centeio chegam quentes. Para beber, Vinho Verde DOC — branco ou rosé — de pequenas parcelas entre prédios. Nas pastelarias, toucinho-do-céu e queijadas de Guimarães. No O Fidalgo, o sarrabulho completo é servido sem pressa.
O campus como paisagem
O campus da Universidade do Minho é uma cidade dentro da freguesia. O Parque da Pró-Reitoria tem 4 hectares com lago e ciclovia que liga ao Parque da Cidade de Guimarães. Percursos pedestres cruzam edifícios contemporâneos, biblioteca e galerias. Nas hortas urbanas de Serzedelo, reformados cultivam couves e tomates. Ao sábado, o mercado na Praça da República vende fruta da época, queijo fresco e salsa com terra.
O som que fica
Ao anoitecer, Azurém produz um som único: o murmúrio de 9 mil residentes e 20 mil estudantes em 2 km². Uma vibração constante — não é barulho nem silêncio, mas a frequência de um lugar que cresce sem esquecer os cruzeiros de pedra que marca os caminhos.