Artigo completo sobre Brito: onde a vinha cresce a 5 minutos de Guimarães
Freguesia minhota de 4774 habitantes mantém ritmo rural entre campos de milho e casas de granito
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O som do sino único da matriz — ferro fundido que soa engasgado nos dias frios — estala a manhã. Atravessa-se primeiro o cheiro da borregueira húmida, depois o vinagrete seco das folhas de vinha que os três últimos degelos colaram ao chão das ramadas. A auto-estrada A7 existe, sim, mas quem vive em Brito sente-a como um zumbido de abelhas longe da colmeia: por baixo do viaduto, na recta da Bouça, ainda se apanham amendoeiras silvestres para compota.
Oito séculos de ir à feira
Foi em 1255, mas o que interessa é que ainda hoje se parte às sete da manhã para a feira de Guimarães — na sexta — com os ovos da própria galinha no seat do lado do passageiro. O nome “Brito” não tem romance nenhum: vem do latim “vicus brittus”, talvez, mas o pessoal da tasquinha do Lopes diz que é só porque “britar” é partir pedra e há pedra que chegue nos muros. Durante séculos levou-se centeio e vinho tinto para a vila; hoje leva-se o carro estacionado no Parque das Hortas e traz-se-se o Continente no porta-bagagens.
Caminhar por Brito exige atenção: o chão cede em zonas onde a minhoca trabalhou por baixo das bermas. Os campos de milho estão a desaparecer — deram lugar a pasto para os cavalos de desporto dos filhos dos emigrantes. As casas de granito novas têm janelas oscilo-batentes Cinzento Fumo; as antigas ainda exibem a pia de lavar onde a avó esfregava a roupa com cinza de videira. Densidade populacional? 4774 almas, mas na segunda-feira parecem 800, na véspera do casamento do Zé são 6000 e no domingo de manhã não passam de 300.
Entre o cabaz e o cemitério
O calendário religoso é o que é: missa ao domingo às 10h30, baptismo só com marcação prévia. A romaria de São Torcato passa à porta, mas ninguém de Brito vai a pé — vai de carro, estaciona na rotunda, come um caldo verde no tasco e regressa antes do fogo-de-artifício. A igreja serve para as cerimónias, mas o verdadeiro ponto de encontro é o cemitério: no fim-de-semana há mais gente junto às campas do que no adro, porque é lá que se comentam os preços da prata e se mostram fotos dos netos no WhatsApp.
Não há restaurante. Come-se o que vem no cabaz da filha que trabalha no Minipreço de Urgezes: se calham rojões, calham; se calha lasanha congelada, come-se também. O vinho é do ano passado, ainda com borras, servido em copos de cerveja porque os de vinho estão todos partidos. O fumeiro existe, mas a cardeira vem de Tarouquela — em Brito já ninguém mata o porco, falta espaço para o sangrar sem os vizinhos chamarem a GNR.
A distância que cabe no bolso
O paradoxo é o bilhete de autocarro urbano: 1,65 € para Guimarães, dura oito minutos até à estação, mas demora meia-hora porque o motorista para em cada passeio para apanhar a mãe do rapaz que faz o turno das três. Ao fim do dia regressa-se antes das sete para não ter de subir a estrada municipal com os faróis estragados. Vê-se a Penha, sim, mas o que se vê mesmo é o candeeiro da Taberna da Lixa a apagar às duas da manhã e o cão do Sequeira a ladrar para a lua.
Quando o sol se põe atrás do telheiro da Oficina Brito & Filhos, a pedra fica cor de mel antigo e o cheiro é de estilha queimada no fogão de sala. O telejornal passa baixo, porque a vizinha do lado já se queixou. A vida segue — não é bonita, não é feia, é só o que sobra depois de se pagar a prestação do Opel Corsa e de se regar o tomate antes de ir dormir.