Artigo completo sobre Candoso: onde o sino marca o tempo desde 926
Igreja visigótica, futsal de elite e vinhas junto ao Selho numa das menores freguesias de Guimarães
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O sino da Igreja de São Martinho toca às dez da manhã, mas quem conhece Candoso sabe que o som não chega a toda a freguesia. Nas ruas mais altas, perto da Escola Básica, ouve-se apenas um eco abafado. É no adro da igreja que o ruído se faz sentir de verdade - o granito das escadas escorrega-se sob os pés descalços das crianças que brincam às escondidas entre os cruzeiros, enquanto os velhos no banco de cimento discutem se o árbitro do jogo de ontem roubou ou não.
A Igreja Matriz não é nenhum palimpsesto arquitectónico - é simplesmente a nossa igreja. Sim, tem uma pia visigótica que parece ter sido ali parada por engano, mas o que marca mesmo é o cheiro a incíenso misturado com cera que fica nos casacos durante a missa dominical. Os altares dourados foram limpos há duas semanas pela Alice e pela Lurdes, que se queixaram durante três horas das dificuldades em tirar o pó das figuras de anjo. A luz que entra pelas janelas é a mesma que ilumina o rosto da D. Zulmira quando ela conta que aqui se casou há cinquenta anos.
O Selho é aquele ribeiro que as crianças são proibidas de atravessar quando chove forte, porque o pai do Tiago já lá foi arrastado duas vezes. Nas suas margens, as vinhas do Sequeira produzem um vinho que o próprio Sequeira diz ser "bebível, mas não é nada de especial". A altitude de 187 metros não impressiona ninguém, mas é suficiente para que no Inverno o nevoeiro fique preso aos vales como algodão hidrófugo.
A Festa de São Martinho é quando o Zé Manel vende castanhas que garante serem de Marão, mas toda a gente sabe que vieram de Felgueiras. O fumo das fogueiras fica preso na roupa durante dias, e o vinho verde é daquele que o tio Américo faz numa garagem improvisada, tão ácido que faz cócegas na garganta. Em agosto, São Bartolomeu traz os emigrantes de França que falam francês com os netos e se queixam que o café já não é como o de há vinte anos.
A gastronomia é o que há. Os rojões do restaurante O Cantinho são bons, mas a carne vem do talho do Guedes mesmo à porta - aquele que tem o gato gordo que dorme na balança. O bacalhau à Braga da Dona Alda leva demasiada cebola, mas ninguém lhe diz nada porque ela leva a mal. As castanhas doces são compradas no Intermarché de Urgezes, mas servidas numa taça da avó que veio na trousseau.
O sino toca às seis e os cães ladram sempre aos primeiros toques. Lá fora, o sol põe-se por trás do Cruzeiro do Senhor do Bonfim, projectando uma sombra alongada que chega quase ao café O Ponto de Encontro. Dentro da igreja, a pia visigótica continua no mesmo sítio, agora com um papel absorvente colocado por baixo porque pinga pelo canto direito.