Artigo completo sobre Lordelo: onde o granito vimaranense encontra a vinha
Freguesia a poucos quilómetros de Guimarães une tradição vinícola e proximidade ao centro histórico
Ocultar artigo Ler artigo completo
A calcada está mais desnivelada do que parece — o sol da meia-manhã ajuda a esconder os lajes que se moveram com o tempo, mas o pé habituado já sabe por onde evitar o tombo. São onze horas e o sino da igreja soa como sempre soou, sem pressa. Lordelo fica a cinco minutos de carro do Centro de Guimarães, mas aqui o tempo não se mede em distâncias. Mede-se em ciclos da vinha, em cheiros a terra depois da chuva, em vizinhos que ainda se cruzam na rua e param para falar do tempo — sempre do tempo.
Entre a cidade e o campo
Quatro mil pessoas espremidas em cinco quilómetros quadrados parecem muitas, mas não é. Há espaço para os quintais, para as galinhas da vizinha, para os cães que passeiam sem trela e conhecem o nome de toda a gente. A estrada nacional leva-vos a Guimarães em tempo de ouvir meia dúzia de músicas no rádio, mas quem cá fica sabe que o importante é o que fica para trás: o recreio onde ainda se joga à bola de esquinas, o café onde se servem bicas a 60 cêntimos, a mercearia que tem de tudo menos pressa.
Os números dizem o que os olhos já vêem: crianças poucas, idosos muitos. Mas há vida. Nas tardes de domingo, os bancos de pedra estão ocupados por quem vem "tomar o ar" — que é como quem diz, falar da vida alheia. As crianças que há, andam de bicicleta pela estrada municipal, livres de trânsito e de pais ansiosos. Crescem a saber que o mundo é maior, mas que este pedaço é suficiente para muita coisa.
O calendário da fé
Não é preciso agenda. Quando chega maio, as ruas enfeitam-se de papel de seda e as barraquinhas começam a aparecer como cogumelos. A Romaria de São Torcato é o nosso São João particular — com menos gente, mais promessas. Há quem venha de Lisboa de propósito, não pela festa, mas porque a mãe fez promessas e as promessas são para cumprir. A procissão avança devagar, o padre vai parando, as velas derretem nos dedos das crianças impacientes. No adro, o cheiro a sardinha assada mistura-se com o incenso — uma combinação que só faz sentido aqui.
À mesa
Não se vai a Lordelo para jantar bem. Vai-se para jantar como se fosse em casa de família — porque, no fundo, é isso que é. A Carne Barrosã aparece quando há motivo: aniversários, baptizados, alguém que vem de fora. É servida em travessas fundas, com o arroz de forno a absorver a gordura que escorre da carne. O vinho verde não é para impressionar ninguém: é para beber sem cerimónias, em copos pequenos que se enchem vezes sem conta. Há quem traga garrafas de plástico direto da adega — não é elegante, mas é honesto.
Proximidade como recurso
Lordelo não é destino. É ponto de partida para quem quer ver Guimarães sem dormir no meio da confusão. Há um hotelzito razoável, alguns quartos de habitação local, mas nada que justifique ficar só por ficar. A não ser que gostem de acordar com o galo, de ir comprar o pão ainda quente às sete da manhã, de ter a Serra da Penha ali ao lado como quintal grande. Ao fim do dia, quando os turistas regressam cansados do castelo e dos museus, Lordelo recebe-os com o silêncio que só o campo sabe dar — pontuado pelo ladrar do Bobi da esquina e pelo motor da Mercedes do Zé que ainda está a aquecer para ir ao café.
À hora do pôr do sol, as fachadas de granito ganham uma cor que não tem nome. É nessa altura que se percebe: Lordelo não é bonita no sentido das fotografias. É bonita no sentido de que faz lembrar que há sítios onde o tempo ainda não foi todo vendido. Onde se pode ficar parado no meio da rua sem ser atropelado nem por carros nem por agendas. Onde o vinho verde continua a ser feito nas caves velhas e o fumo das lareiras sobe direitinho, como tem subido há centenas de anos.