Artigo completo sobre Moreira de Cónegos: granito azul e fé no coração do Minho
Freguesia de canteiros e pedreiras centenárias entre Guimarães e a tradição das Cruzes de Maio
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O som chega primeiro: o golpe seco do martelo pneumático contra o granito, seguido de um silêncio espesso que se acumula entre as paredes da pedreira. Depois, o eco. Moreira de Cónegos respira ao ritmo da pedra — aquela tonalidade azulada única que os mestres canteiros reconhecem ao toque, fria debaixo da palma da mão mesmo em pleno Agosto. Nas antigas pedreiras a céu aberto, abandonadas há décadas, a água da chuva acumulou-se em espelhos verdes onde flutuam folhas de amieiro. O granito azul daqui viajou para pontes, cruzeiros e soleiras de casas senhoriais por todo o Minho. A freguesia vive dessa extração desde o século XIX, e a paisagem guarda as cicatrizes: cortes geométricos na rocha, degraus gigantes esculpidos pela dinamite, o pó fino que ainda se deposita nos muros das casas mais próximas.
Terra de cónegos e canteiros
O topónimo não mente. "Moreira" remete para os amieirais que ladeavam as ribeiras; "Cónegos" aponta para os bens eclesiásticos que aqui se concentravam. Desanexada de Serzedelo em 1853, a freguesia ergueu-se em torno da Igreja Matriz de origem quinhentista, onde o retábulo barroco dourado contrasta com a sobriedade granítica das paredes. No museu paroquial, ex-votos de cera e prata testemunham promessas cumpridas — alguns em forma de pernas, outros de corações, todos com datas escritas à mão que se vão acumulando desde há cento e cinquenta anos. A Capela de São Torcato, mais modesta, do século XVIII, serve de ponto de paragem obrigatório para os romeiros que sobem a pé desde Guimarães — alguns descalços, outros de joelhos no troço final, deixando gotas de sangue na pedra que o tempo não apaga.
São onze os cruzeiros de pedra espalhados pelo território, alguns classificados como de interesse público. Em Maio, a Festa das Cruzes de Serzedelo veste-os de flores: rosas, cravos, malmequeres entrelaçados em arcos que oscilam ao vento. A procissão avança devagar, ao som de bombos e concertinas, e o cheiro a cera derretida mistura-se com o da terra molhada. As mulheres carregam as cruzes floridas nos ombros — algumas com as costas já curvadas pela idade, mas com um ar firme nos olhos —, os homens atiram foguetes que estouram contra o céu cinzento, deixando cair papelinhas que se agarram aos telhados.
Trinta mil peregrinos e um rio de promessas
No último domingo de Agosto, Moreira de Cónegos multiplica-se. A Romaria Grande de São Torcato atrai mais de trinta mil pessoas — número que triplica a população residente. Desde a madrugada, os romeiros chegam a pé, vindos de Guimarães e das freguesias vizinhas, alguns com velas acesas protegidas pela mão em concha. O café Central abre às cinco da manhã para servir o primeiro galão aos que já caminharam desde as quatro, e a padaria da Dona Alice vende os primeiros padres-de-novena ainda quentes. Ao meio-dia, as cavalhadas levantam poeira na estrada: cavalos enfeitados com fitas vermelhas e amarelas, cavaleiros em trajes tradicionais com os casacos bordados à mão pelas mulheres da casa, o relinchar nervoso dos animais quando os foguetes explodem. À noite, a feira estende-se por centenas de metros — comes e bebes, bancas de artesanato onde se vendem as tradicionais bonecas de trapos com vestidos de chita, música pimba a todo o volume. O cheiro a farturas e a assado no espeto impregna o ar até de madrugada, e as pessoas dançam no chão de terra batida como se o mundo fosse acabar amanhã.
Carne, pedra e vinho verde
Nas tasquinhas locais, a Carne Barrosã DOP chega à mesa em rojões dourados de colorau, acompanhados de batata a murro e arroz de sarrabulho. O toucinho derrete na língua, deixando um travo fumado que lembra as lareiras onde ainda se queima carvalho. Na "O Cónego", serve-se também chanfana aos domingos, cozinhada em panela de barro sobre brasas — o cheiro a vinho tinto e a louro percorre a rua desde as oito da manhã, e quem passa já sabe o que vai comer. O vinho verde da sub-região de Guimarães, servido em caneca de loiça, corta a gordura. Ao balcão, os homens discutem futebol e pedreiras enquanto molham broa de milho no caldo verde, onde o chouriço flutua em rodelas translúcidas. A Dona Lurdes, que serve há trinta anos, ainda pergunta "mais um golinho?" com a concha na mão antes de despejar mais vinho na caneca.
Trilhos entre o rio e a pedra
O Trilho de São Torcato percorre cinco quilómetros entre a capela, as pedreiras desactivadas e o rio Ave. O percurso desce por caminhos de terra batida onde ainda se vêem os sulcos deixados pelos carros de bois que transportavam blocos de granito — alguns mais fundos que outros, marcados pela passagem de gerações. Nos moinhos de água recuperados, as rodas de madeira voltaram a girar — mais para turistas do que por necessidade, mas o moleiro Joaquim ainda mostra aos miúdos como se faz a farinha, com as mãos cheias de farinha branca que se agarra às rugas. O rio corre manso entre amieiros e salgueiros, e nas margens crescem silvas carregadas de amoras em Setembro — as crianças voltam para casa com a boca roxa e as camisas rasgadas nos espinhos. Mais acima, nos socalcos, as vinhas alternam com o milho, e o vento traz o cheiro a estrume fresco espalhado nos campos, misturado com o perfume adocicado das uvas que já começam a dobrar.
Ao crepúsculo, quando a pedreira grande ainda em actividade desliga as máquinas, o silêncio regressa. Fica apenas o murmúrio do Ave e, ao longe, o sino da Igreja Matriz marcando as seis da tarde — um toque grave, metálico, que ressoa nas paredes de granito azul e demora três segundos a desvanecer-se por completo. Nesse momento, as crianças correm para casa antes que as mães gritem pelo jantar, e os velhos continuam a jogar sueca sob o plátano da praça, com o baralho já gasto e copos de aguardente que ninguém se atreve a contar.