Artigo completo sobre Três paróquias unidas num mosaico de granito e fé
Oliveira, São Paio e São Sebastião concentram 28 monumentos em 155 hectares de história minhota
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O sino da Oliveira toca primeiro — eco abafado que desce a Rua da Igreja, bate na parede do bar do Zé e morre na esquina onde cheira a pão acabado de sair do forno de lenha. Ainda não acabou o badalo e já o de São Paio responde, mais agudo, a subir a Calçada de Nossa Senhora da Visitação. O de São Sebastião é o último, grave, como se viesse de dentro da terra. Três bairros, três vozes, e mesmo depois de 2013 ninguém mistura os toques: cada um sabe qual é o seu.
Três nomes, três identidades, uma só calcada
Oliveira tem a praça mais pequena, mas é ali que se faz o mercado ao sábado — quatro bancas de legumes, duas de peixe, uma de queijos e a D. Rosa que ainda traz os seus limões do quintal. Em São Paio o adro é grande o suficiente para o ciclo de romarias que ainda se faz de noite, à luz de archotes, com os rapazes a segurarem os andores descalços. São Sebastião é o que tem o cruzeiro mais gasto: dizem que foi quem marcou o limite quando a peste de 1854 fechou as portas do Burgo. A toponímia veio depois, para explicar o que já existia.
A fé que se faz festa
A Festa das Cruzes começa na terça-feira, quando o António das Ferrarias vai buscar a madeira nova para as fogueiras. Em Serzedelo cada casa põe uma jarra de flores na janela — loendros para quem tem filhas casadas, malmequeres para quem ainda as tem por casar. Às nove da noite o cortejo desce: vão dois andores, o da igreja e o que veio de Refojos de Basto, e entre eles o pessoal de concertina que o Joca leva no Citroën 2CV. O cheiro a sardinha é mentira — aqui é sardinha de escabeche, feita no dia anterior, porque ninguém aguenta estar à frente do braseiro depois de comer. A Romaria de São Torcato é outra história: começa às cinco da manhã com o toque da corneta do clube de caçadores e só acaba quando o padre faz a derradeira bênção e o café do Largo enterra o garrafão de aguardente que guardou o ano todo.
Rojões, Vinho Verde e a carne que vem das serras
O vinho verde do Aníbal é branco, engarrafado em garrafas de plástico azul que ele lava e reutiliza. Serve-se gelado, com uma colher de chá de açúcar se for para acompanhar os rojões — não é regra, é gosto dele. A carne Barrosà vem do talho do Horácio, que ainda mata à sexta-feira e tem a cave cheia de presuntos pendurados no tear de madeira que o pai construiu. O caldo verde leva couve-galega da horta da D. Alda, cortada à tesoura de poda, e o chouriço é o de casa, fumado a buxo. Quem não tem mesa suficiente vai comer para o largo, de prástico na mão, e o pão é sempre o mesmo: broa de milho do forno do outro lado da EN206, que abre às seis e fecha quando acaba.
28 monumentos em 155 hectares
Não são 28 — são 27 e meio, porque o cruzeiro das Cavadas perdeu a cruz em 1974 e ninguém arranjou coragem de lhe pôr outra. O granito é o mesmo de sempre, mas quem o trabalhou deixou marcas diferentes: há letras com a C e o E deitados, sinal de que o canteiro era da escola de Braga; há rodelas de três dedos de largura, que só se faziam em Vila Verde. A ponte da Veiga tem a marca do rio: cada vez que sobe leva uma pedra, e já se vê o arco que o prior mandou refazer em 1892. O mais bonito é o cruzeiro de São Sebastião ao cair do dia: quando o sol se põe por trás do Castelo o granito fica cor de mel e as sombras fazem cruzes dentro da cruz.
A paisagem que resiste entre muros
Entre o muro do cemitério novo e a parede do infantário ainda há um pedaço de terra onde o Sr. Vicente planta milho para os pássaros. São 47 passos de comprimento por 13 de largura, medidos com o seu metro de madeira que tem o nome do filho carpinteiro marcado a ferro. A ribeira de São Torcato só corre no Inverno; no Verão fica um rego de pedras negras onde os miúdos apanham lagartixas. Quando as cigarras começam é sinal de que chegou o fim-de-semana da romaria: aí sim, o trânsito sobe da EN206 até à igreja e o cheiro a gasolina mistura-se com o do esterco das vacas Barrosãs que ainda pastam no Campo da Feira. Às nove e meia o sino da Oliveira toca pela última vez. Em São Paio respondem ainda, mas mais baixo — e em São Sebastião já só se ouve o cão do Ferreriro que ladra para o vazio.