Artigo completo sobre Prazins Santo Tirso: vinha, xisto e fumeiro no Minho
Freguesia de 970 habitantes entre vinhas verdes e tradições ancestrais nos declives de São Torcato
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O xisto escuro das paredes guarda o calor da tarde como quem guarda segredo. Prazins agarra-se ao Monte de São Torcato, a meio da subida para o Viso, e quem passa por aqui pela primeira vez pensa que o GPS se enganou: vinhas em cima de vinhas, nenhuma aldeia à vista, só uma tabuleta a dizer que já se chegou. Mas é mesmo aqui. 970 pessoas, 274 hectares e um café que abre quando o Zé tem vontade.
Entre a vinha e o fumeiro
Cada quintal é um mundo. Tem a videira da avó, o pessegueiro que ninguém plantou, o milho que ainda se vai debatendo contra as lesmas. E tem o fumeiro, claro. Está lá desde que o pai construiu a casa, lá para os lados do 25 de Abril, e ainda fuma como novo. O chouriço que lá dentro ganha cor é mistura: metade Carne Barrosã que o primo traz de Montalegre, metade porco criado no curral de trás. Ninguém escreve receitas, mas toda a gente sabe que o segredo é a lenha de carvalho seca dois anos e a paciência de não abrir a porta aos primeiros cinco dias. Quem cede à tentação e vai espreitar leva com um "isso não tem cura" da vizinha.
Dizem que por cá há 422 habitantes por km², mas isso deve contar os cães. O que sei é que na escola primária ainda vão 30 miúdos e que o infantário está cheio desde que a creche de Guimarães encheu. Os 123 anciãos continuam a subir a ladeira como se nada fosse, cumprimentam-te sempre e depois perguntam de quem és filho. Se não souberes, explicam-te logo a árvore genealógica inteira.
O eco das romarias
Agosto é mês de "vamos a São Torcato". Não é conversa: metade da freguesia sobe o monte de madrugada, calçado de lona e garrafa de água na mão. A procissão passa por Prazins às sete, mas quem vai mesmo já lá está desde as seis a falar do tempo e a comparar botas. As bombas de pólvora rebentam tão perto que os cães se escondem debaixo das mesas e os turistas (os poucos que se perderam para aqui) pensam que começou a caça. Quando descem, às tantas da tarde, param todas no café do Júlio. Pedem um fino e um pedaço de pão de ló que a mulher do Júlio faz no forno a lenha. Dizem que é pela promessa, mas é mesmo pela conversa.
Quanto à Festa das Cruzes de Serzedelo, é a desculpa perfeita para se juntar o pessool todo e fazer um assado no espeto. Quem não tem parente em Serzedelo tem amigo, e quem não tem amigo arranja na hora. No domingo à noite voltam de autocarro, cantando aquelas cantigas que só se lembram depois de umas imperiais.
Território de transição
Prazins não é aldeia, não é cidade, é um "meio-termo" como diz o Rui, que veio do Porto há dez anos e ainda explica ao carteiro que não é propriamente em Guimarães, mas também já não é bem Santo Tirso. Aqui chegou a internet antes do asfalto (verdade), chegou o betão mas não chegou o Uber. As casas novas, todas de amarelo-que-não-pedi, assentam ao lado dos palheiros onde o avó ainda guarda a espiga de milho. Antena parabólica no telhado, erva na laje, tudo ao mesmo tempo.
Quando o sol se põe atrás do Viso e o nevoeiro sobe do Ave, acende-se primeiro a lareira, depois o forno. O cheiro a lenha queimada mistura-se com o vinagre da panela de feijão e com a terra que ainda está quente do dia. É esse cheiro que te avisa que já é noite e que, se fores esperto, apanhas ainda o último fino antes do café fechar. Se não, sentas no muro, olhas para as estrelas que aqui ainda se veem, e esperas que o Zé decida abrir mais meia hora. Porque em Prazins nunca se sabe bem a hora de ir para casa: é sempre "mais cinco minutos", que rapidamente vira "fica para o jantar".