Artigo completo sobre Ronfe: Vinhas, Granito e o Sino de São Torcato
Entre o Ave e os campos de vinha, Ronfe mantém o ritmo lento das festas e da pedra medieval
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O sino da Igreja de São Torcato bate três pancadas sobre os campos de Ronfe. O som viaja sem pressa pelos vales baixos do Ave, atravessa as vinhas dispostas em patamares irregulares, ressoa contra o granito das capelas dispersas pela freguesia. A 122 metros de altitude, entre o planalto e a planície, esta comunidade de origem medieval mantém-se fiel ao ritmo que a terra impõe — o da vinha que amadurece devagar, o do gado que pasta nas encostas, o das festas que se repetem há séculos.
Ronfe e o peso da pedra
Referenciada desde o século XIII, Ronfe cresceu nas terras baixas do Ave como extensão natural da expansão agrícola vimaranense. O topónimo pode derivar de "Runcio", palavra latina que tanto pode aludir a um curso de água como a uma elevação do terreno — ambiguidade que faz sentido nesta zona de transição, onde a Ribeira de Ronfe desenha pequenos vales húmidos entre campos lavrados. A Igreja Paroquial de São Torcato, de origem medieval e remodelada ao longo dos séculos, ancora a paisagem com a sua massa de pedra cinzenta. Em volta, cruzeiros e capelas pontuam os caminhos entre aldeias, como os cruzeiros de Serzedelo, testemunhos silenciosos de uma fé que se expressa também na arquitectura — casas senhoriais em granito, muros de pedra seca, portais que resistem ao tempo.
Fora dos caminhos de Santiago
Ronfe é uma das raras freguesias de Guimarães que não é atravessada por nenhum dos caminhos oficiais de Santiago. Essa ausência não é acaso: moldou uma identidade mais fechada, menos permeável às correntes externas, mais enraizada no seu próprio calendário. A comunidade vive virada para dentro, para as suas próprias celebrações. A Festa das Cruzes de Serzedelo e a Romaria Grande de São Torcato são os momentos em que a freguesia se abre, mas sempre nos seus próprios termos — procissões que percorrem os mesmos trilhos há gerações, ranchos folclóricos que dançam ao som de concertinas, arraiais onde o cheiro a rojões e papas de sarrabulho se mistura ao fumo das fogueiras.
A memória têxtil e a carne Barrosã
Até meados do século XX, Ronfe manteve uma comunidade de artesãos têxteis que transformava a lã da região em mantas e panos artesanais. Essa tradição dissipou-se, mas a relação com a matéria-prima permanece: a Carne Barrosã DOP, produzida em pequenas explorações locais, chega às mesas em pratos como o rojão à minhota — pedaços de carne marinados em colorau e alho, fritos até ficarem dourados nas pontas — ou o cozido à portuguesa, onde a carne se desfia com a pressão do garfo. Nas tasquinhas que abrem durante as festas, o vinho verde produzido nas quintas da freguesia desce fresco, com aquela acidez que corta a gordura dos enchidos. Na sobremesa, o toucinho-do-céu, denso e húmido, guarda a memória dos conventos minhotos.
Entre vinhas e ribeiras
A paisagem de Ronfe não é espectacular — é funcional, trabalhada, doméstica. Campos agrícolas sucedem-se às vinhas, que por sua vez dão lugar a pequenos bosques de carvalho e pinheiro. A Ribeira de Ronfe atravessa a freguesia criando zonas húmidas onde crescem salgueiros e fetos, onde a água corre devagar sobre pedras cobertas de musgo. Não há áreas protegidas classificadas, mas os trilhos pedestres que ligam Ronfe a Serzedelo oferecem uma imersão na ruralidade preservada — caminhos de terra batida ladeados por muros de granito, atalhos entre vinhas onde o silêncio só é interrompido pelo canto de melros.
A densidade populacional de quase 900 habitantes por quilómetro quadrado não se sente como aperto. As 4496 pessoas que aqui vivem distribuem-se por aldeias e casais, mantendo distâncias respiráveis. Quando o sino de São Torcato volta a bater, o som atravessa os mesmos vales, encontra os mesmos ouvidos — e Ronfe responde como sempre respondeu: devagar, sem pressa, com a certeza de quem conhece o peso exacto da pedra e o tempo certo de colher as uvas.