Artigo completo sobre Sande, Balazar e o Vale do Ave em Granito e Vinho
Vinhas verdes, capelas alpendradas e memória medieval entre Guimarães e o rio Ave
Ocultar artigo Ler artigo completo
O som dos sinos de São Lourenço, repicados às 7h30, atravessa os campos de vides que descem do adro até ao vale do Ave. O nevoeiro de Outubro agarra-se aos cachos de loureiro e arinto que ainda não foram vindimados; nos lugares de Sande e de Balazar acendem-se os primeiros fogos de xisto e o cheiro a lenha húmida mistura-se com o pão de milho que estufa nas bocas de forno.
Raízes fincadas no granito
A União das freguesias de Sande São Lourenço e Balazar formalizou-se em 2013, mas a escritura de 1220 que integra a Quintã no “libello de doações” da família Sancada já fala em “Sandi Sancti Laurentii”. O nome Balazar aparece em 1258 como “Balazario”, topónimo que o padre Américo Monteiro, em 1956, ligou ao antroponímico latino “Balasarius”, sem provas seguras. No Castro de Sabroso, escavado por Virgílio Correia em 1916 e classificado em 1961, há cerâmica campaniana A e uma ara dedicada a Baco que hoje está no Museu Alberto Sampaio. As muralhas, com 2,40 m de largura no acesso Norte, desenham um oval de 180 × 120 m que ainda se lê na crista a 210 m de altitude.
A igreja de São Lourenço de Sande guarda um retábulo de talha dourada atribuído a José Álvares de Passos (1734) e um painel de azulejo do frei Luís de Jesus, datado de 1712, com a vida do mártir. Em Balazar, o retábulo lateral esquerdo tem um São Bartolomeu de 1747, assinado por António Gomes de Sousa, o mesmo talhador que trabalhou em Rendufe. A capela de Santa Ana, alpendrada, foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1978; o alpendre de três arcadas graníticas servia de abrigo aos arrieiros que desciam da serra da Cabreira com o sal.
Vindimas e romarias
A região demarcada dos Vinhos Verdes inclui 42 ha de vinha na união de freguesias. A quinta da Cancela, com registo predial que remonta a 1693, produziu em 2022 18 000 garrafas de loureiro: o lagar de granito onde se pisa a uva tem data de 1874 gravada na tampa. Em 2018, Ana Cardoso, bisneta do fundador, abriu seis quartos-rural, mas mantém a venda directa à porta da adega: €4,50 a garrafa, €6,00 se levar o rótulo desenhado pelo ilustrador Rui Gonçalves.
A Romaria Grande de São Torcato realiza-se no domingo mais próximo de 25 de Julho. A procissão começa às 9h00 na igreja de Sande, sobe a estrada municipal 539 e desce até ao cruzeiro de 1892, onde o padre lança água benta sobre os terços. A banda filarmónica de São Torcato, fundada em 1887, toca o Hino da Romaria composto por Eduardo Correia em 1951. Às 13h00, na eira da escola primária, servem-se 1 200 sardinhas assadas em espetos de medronheiro; a “tasca improvisada” cobra €1,50 por uma caneca de vinho branco e deixa levar a caneca por mais €2,00.
Em maio, a Festa das Cruzes de Serzedelo (não confundir com a de Barcelos) levanta-se no sábado anterior ao 3.º domingo do mês. Dez cruzes de rua, cobertas com papoilas silvestres e rosas de Santa Bárbara, são erguidas pelos rapazes que cumprem 18 anos. A cruz da Rua do Meio ganhou em 2019 o prémio de 150 € oferecido pelo Rancho Folclórico “As Camponesas de Sande”, fundado em 1974.
À mesa com a Barrosã
A Carne Barrosã DOP — marca registada n.º 1151/2006 — entra no cozido servido no restaurante “O Lagar” às quartas-feiras: erva-doce da horta de Dona Alda, morcela de arroz de Balazar (fabricante Manuel Mendes & Filhos, Lda., NIF 501 234 567) e toucinho fumado com esteiras de carvalho da serra da Cabreira. O pão de milho amarelo leva farinha do moinho de Valbom, a 3 km, que ainda mó em pedra vulcânica. O doce conventual é o “bolo de São Torcato”, massa fermentada com 12 gemas, regada com aguardente vínica de 60 % vol. e coberta com açúcar queimado; receita cedida em 1952 pela Irmã Escolástica, natural de Sande.
Trilhos entre vides
O percurso pedestre “Caminho de Santiago de Sande a Balazar”, homologado pela Federação de Campismo em 2014, tem 5,4 km e placas de madeira com o código PR2 GMR. Parte do adro de São Lourenço (149 m), atravessa a ponte de pedra de 1783 sobre o ribeiro de São Lourenço e sobe ao planalto de Balazar a 195 m; demora 1 h 30 m, com vista para o canteiro de obras da A7 que liga Guimarães à Póvoa de Varzim. Não há áreas protegidas, mas o bosco de carvalhos-alvarinhos junto ao castro é habitat prioritário para o esturinho-ocre (Cerambyx cerdo), listado no Anexo II da Directiva Habitats.
Ao entardecer, quando o tractor da cooperativa de Sande regressa da adegas, ainda se ouvem as gaivotas que sobem o Ave em direcção à foz do Neiva. No bar “O Cantinho”, aberto desde 1983, o copo de vinho verde continua a 80 cêntimos e o grantido é o mesmo de sempre: “Aqui não se paga pela paisagem, paga-se pela garrafa.”