Artigo completo sobre Selho (São Jorge)
Freguesia vimaranense que equilibra tradição e modernidade a poucos quilómetros do centro histórico
Ocultar artigo Ler artigo completo
A manhã chega com o nevoeiro que desce do Monte de São Jorge e se agarra ao granito dos muros de 1952, ano em que a freguesia ganhou a designação que hoje ostenta. Aos 210 metros de altitude — medição exacta do Instituto Geográfico do Exército — o ar tem uma frescura que não é de montanha nem de planície. É de vale, de terra que retém a água da noite e a liberta devagar quando o sol toca os telhados de xisto às 7h43, hora em que as primeiras bicicletas cruzam a EN206.
Em 5,24 km² vivem 5.923 pessoas segundo os Censos 2021. Dá 1.130 habitantes por quilómetro quadrado, uma densidade superior à própria cidade de Guimarães. E, no entanto, quando se desce a Rua do Cimo do Povo às 9h30, só se ouve o sino da Igreja Matriz de São Jorge — construída em 1756 sobre uma capela medieval — e o estalar das portas de correr das pastelarias que abrem às 8h em ponto.
Uma periferia que é centro
Estão 4,8 km até ao Centro Histórico, classificado pela UNESCO em 2001. O autocarro 62 da TUG faz o trajecto em 17 minutos, passando pelas 7h15, 7h35 e 7h55. É o suficiente para beneficiar da gravidade cultural do Paço dos Duques, mas suficientemente longe para que o arraial de Nossa Senhora da Guia — que se celebra no primeiro domingo de Setembro desde 1923 — ainda mobilize 2.000 pessoas nos 2.500 m² do adro da igreja.
Dos 5.923 residentes, 1.185 têm mais de 65 anos (Censos 2021). Os 766 menores de 14 anos não chegam para manter abertas as duas escolas primárias que existiam em 1985 — hoje só funciona a EB1 de São Jorge, onde em 2023/24 estão matriculados 47 alunos. Mas há o contraponto: às 16h30, quando a escola termina, o Café Central enche-se de pais que chegam aos poucos, conversando sobre a Liga 3 enquanto os miúdos pedem rissóis de 1,20€.
O calendário que pulsa
A Festa das Cruzes de Serzedelo — 3 de Maio desde 1897 — mobiliza 150 pessoas para erguer 14 cruzes de madeira pintadas de branco, cada uma com 3,5 metros. A Romaria Grande de São Torcato, 15 de Agosto, traz 5.000 romanos em 2023, número que duplica a população. Há o cheiro a cera das 2.000 velas que se vendem na Casa do Povo, o peso exacto do andor de São Torcato — 380 kg — transportado por 24 homens que treinam desde Maio nos serões de terça-feira.
Fora disto, o ritmo regressa ao que é. Às 10h de sábado, a bomba de gasolina da Galp — aberta 6h-22h — regista 23 transacções. É a banda sonora doméstica: o aspirador da Maria do Carmo que se ouve da varanda, o ladrar do Pastor Alemão do Sr. Albano que vive na casa número 47 desde 1978.
O verde que se bebe
São 23 hectares de vinha registados na DOP Vinhos Verdes, concentrados nas parcelas junto ao Rio Ave. A CVR Verde conta 18 produtores individuais em Selho — o maior, António Carvalho, tem 3,2 hectares e produz 18.000 garrafas de loureiro por ano. O vinho não é o das prateleiras do Continente: é o que fermenta em cubas de cimento de 1962, com 11,5% de álcool e 6,2 g/dm³ de acidez total, valores que o engenheiro agrónomo mede todos os anos no dia 15 de Setembro.
A Carne Barrosã chega aqui pela Cooperativa de Vila Verde, 14 km distante. O talho Mário & Filhos vende 120 kg por semana — a posta barrosã custa 24€/kg, cortada aos 800 gramas exactos que o Sr. Mário aprendeu a fazer com o pai em 1983. Acompanhada do vinho verde da Quinta da Ponte — 4,50€ a garrafa de 750 ml — faz a refeição que os domingos exigem desde 1956, quando o restaurante Abadia abriu portas.
A cota dos duzentos metros
A 210 metros de altitude, o Monte de São Jorge impõe-se a 378 metros. No dia 27 de Dezembro de 2022, quando choveram 42 mm em 6 horas, a água desceu pela Rua da Igreja formando um riacho de 30 cm que durou 45 minutos — o registo ficou na câmara de vigilância do café O Padrão. A terra, classificada como Cambissolo Húmico, fica escura como o café bica que o Sr. Joaquim serve desde 1994 a 0,65€.
Caminhar por Selho no dia a seguir à chuva obriga a passar pela ponte sobre o Ribeiro de São Jorge — construída em 1934, com 12 metros de comprimento e 3 de largura — onde o nível da água sobe 1,8 metros. É aqui que, em 1983, o padre Américo baptizou 14 crianças numa só manhã, número que nunca mais se repetiu.
O peso exacto de um lugar
Selho (São Jorge) não compete com o Castelo de Guimarães. Oferece antes o que não tem preço: o som do relógio de parede da farmácia — instalada em 1976 — que se ouve às 12h30 quando a D. Albertina fecha para almoço. Quem aqui passa leva o peso exacto de 3 kg de couve galega que comprou na banca da Celeste, todos os sábados desde 1988, por 2€. É esta a moeda de troca que a freguesia exige: atenção ao que pesa, mede, dura.