Artigo completo sobre Selho São Lourenço e Gominhães: onde o rio marca a história
Duas freguesias minhotas unidas pelo vale do Selho, com igrejas centenárias e memórias romanas
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da matriz toca ao meio-dia e o eco desce pela encosta abaixo, raspa nas silvas e morre no rio. Não é "vale do Selho" – é o próprio Selho, que aqui ainda é ribeiro, corre entre amieiros e pedras onde as crianças descalças aprendem a pescar enguias com a mão. O cheiro não é genérico: é fumo de oliveira verde que ainda arde no forno da Dona Aurora, o mesmo onde ontem cozeram os pães para a romaria e hoje vai o cabrito do costume.
Gominhães: o nome que ninguém explica
Dizem que Gumilan era o visigodo, mas o que se ouve é o apelido Carvalho repetido em cada esquina. Duas igrejas e cinco capelas não são estatística – são portas que se abrem conforme o santo: para o trabalho, Nossa Senhora da Conceição; para a chuva, São Sebastião; para a saudade, o Socorro. No adro do Castelo o capitel romano serve de banco aos velhos que jogam bisca à sombra. Os espigueiros já não guardam milho; guardam-se ferramentas e memórias de quem partiu para França nas malas da TAP.
O Selho, fronteira que ninguém vê
A ponte não é "medieval" – é de 1797, diz a pedra que está lá, e serve para o tractor do Sr. Albano passar com o trailer de vacas barrosãs. A linha de água separa mesmo os concelhos: a direita, a terra de Guimarães; à esquerda, a Póvoa com os seus preços de água mais barata. Quatro quilómetros até São Torcato são quatro quilómetros de alcatrão lascado, cheiro a estrume e às vezes um melro que se atira contra o vidro do carro. No miradouro há uma lata de Super Bock partida e a vista para Penha, sim, mas também para a central de betão que a Câmara prometeu esconder com eucaliptos.
Festa: o que sobra no prato
Rojões não é posta de turismo – é o que sobra do porco que se matou em dezembro e que dura até agosto, temperado com colorau da Bolsa do Agricultor. A Festa das Cruzes é quando as velhas levam as camélias da horta para a procissão e os netos vendem hash nos cantos das tendas. São Torcato é o fogo-de-artifício que assusta as ovelhas e faz o cão do Adélio fugir para o monte. Em São Lourenço, dia 10, a missa é às 11h, não às 12h, porque o padre tem de almoçar em Vizela. Serve-se sarrabulho, sim, mas é o das panelas da D. Lúcia que ninguém arranja: leva pão de água de dois dias e toucinho entornado porque “o gordo é que dá sabor”.
Retábulo: o que se vê de verdade
O dourado está descascado à direita, onde o dedo do sacristão aponta quando explica que “aquilo foi o terremoto de 41”. A vela custa 50 cêntimos e o dinheiro vai para o telhado que ainda fica a chover na segunda fileira de bancos. São Lourenço segura a grelha de ferro que o sacristão fez no liceu, antes de ir para a guerra de África. A capela lateral tem uma motosserra emprestada à entrada – é para cortar a árvore que caiu no cemitério e ninguém quer pagar ao Junta.
No parque junto à ponte há três mesas de betão e uma lixeira transbordada. A broa vem do forno de Gominhães, sim, mas traz manteiga da RAR porque a da quinta já não dá para vender. O vinho é branco, do ano passado, e tem gosto a cortiça porque o garrafão ficou demasiado tempo no lagar. O ritmo é o do rio que baixa: quando chove, leva o milho da horta; quando seca, mostra as latas que as velhas atiram ao meio da ponte.