Artigo completo sobre Ponte do Soeiro: granito romano sobre o Rio Selho
A Ponte do Soeiro e a Via Romana XVII marcam a paisagem histórica de Serzedelo, em Guimarães.
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O som chega primeiro: água a bater na pedra como quem bate à porta do vizinho. A Ponte do Soeiro está lá há oito séculos e parece que nem se deu ao trabalho de envelhecer — os canteiros românicos meteram cada pedra no sítio com tanto cuidado que até 2020 a Universidade do Minho teve de vir cá copiar o molde. Levaram quatro anos e meio milhão de euros para tirar a ponte à mão, numerar as pedras como se fossem botas de coleção e pô-las outra vez no mesmo sítio. Em Serzedelo, concelho de Guimarães, isto conta-se assim: "fizeram a ponte outra vez, mas já cá estava".
A pedra que viu Roma passar
Dizem que por aqui passava a estrada XVII que ligava Braga a Astorga. Não sei se era autopista, mas sei que os peregrinos a caminho de Santiago e os mercadores de vitelas vinham cá parar como quem vai ao café — porque não havia outro sítio para atravessar o rio. O nome da freguesia vem do latim, Serdelum, que quer dizer mais ou menos "casa antiga". E é isso: uma aldeia que não precisa de placa para dizer que é antiga. Basta olhar para a igreja, que é branca e discreta como uma mulher que vai à missa e não quer chamar atenção. Os muros de pedra, as varandas de madeira escura, os portais de granito — tudo fala baixo, mas diz muito.
Andar pela margem do Selho é seguir o rio como quem segue o fio da meada. Aqui não há grandes aventuras: há vinha em latada baixa, milho verde que parece pintado e um nevoeiro matinal que se levanta como quem saiu da cama mal disposto. A 142 metros de altura, o ar é húmido e cheira a terra molhada. E sim, dá para ir a pé até São Bento da Porta Aberta — mas leve água, que o caminho é longo e não há cafés.
Festas que enchem o vale — e a barriga
Às vezes a aldeia enche-se. A Festa das Cruzes e a Romaria de São Torcato fazem as ruas parecerem mais pequenas do que são. Cheira a cera queimada e a carne Barrosã na brasa — é carne com sabor a quintal, marmoreada como um bom bife, mas mais honesta. Serve-se com broa de milho e vinho verde que fazem os copos pedirem mais um. Não é gastronomia; é comida de quem trabalha a terra e sabe o que é bom. Nas tascas que abrem só para as festas, há enchidos que estão pendurados desde o ano passado e doces que ainda sabem ao tempo das freiras. O pão de milho esfria sobre toalhas de linho — não é para tirar fotografia, é para comer.
O rio, a ponte e o resto
Depois da obra, meteram bancos de pedra para se apreciar a ponte. Mas o melhor lugar é mesmo encostar a mão ao parapeito e sentir o granito lascado — está quente ao sol da tarde e tem vincos que parecem rugas de avó. O rio continua, indiferente às inaugurações e aos turistas. A ponte também. E Serzedelo continua a ser aquilo que sempre foi: um sítio onde se atravessa o rio, se vai à missa e se espera pela próxima festa. São 3418 pessoas em 513 hectares — muitos idosos que se lembram de quando não havia estrada, e alguns jovens que ainda não decidiram se ficam ou se vão. Mas a ponte fica. Como diz o Zé do café: "ela já viu mais gente passar que o tribunal de Guimarães".