Artigo completo sobre Campos e Louredo: terra de barrosã e tradição minhota
União de freguesias na Póvoa de Lanhoso onde o gado pasta livremente e a ruralidade resiste
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O mugido de uma vaca barrosã soa mais rouco do que grave - é um baixo que se parte ao meio quando o animal se inclina para beber na gamela de cimento junto ao muro. São sete e meia em Campos, o nevoeiro ainda não se desfez completamente e o Sr. Armando, de chapéu de borla, acaba de sair de casa com o pão de ontem na mão para dar às galinhas. Ninguém liga às vacas no campo: são como móveis do quintal, manchas castanho-avermelhadas que se movem devagar entre os tojos.
A união de Campos e Louredo, feita em 2013, continua a soar estranho aos mais velhos. "Campos é Campos, Louredo é Louredo", dizem. Com 506 hectares, a freguesia cabe toda num olhar do alto da estrada que sobe à Senhora do Porto. Os 1391 habitantes contam-se de cor: faltam os que emigraram, sobram os netos que voltam aos fins-de-semana para comer sopas de nabada com a avó.
Raízes medievais, sabor contemporâneo
As barrosãs pastam onde sempre pastaram, mas agora há cercas eléctricas e o veterinário vem de carro. A carne Barrosã DOP vende-se no Talho do Zé Mário, junto ao café O Parque - vai para o Minho inteiro, mas os melhores nacos ficam cá. Quando há matança, o cheiro a sangue e a fumiga percorre a aldeia toda; as muleres juntam-se à porta do celeiro a trocar receitas de morcela enquanto os homens cortam a carne em pedaços que cabem na arca congeladora.
No restaurante A Calceta, a dona Albertina serve rojões numa panela de ferro que ainda foi da mãe. O colorau vem da loja do Sr. Albano, o vinho verde é do ano passado e sabes que está bom quando o copo fica com anéis brancos. O arroz de sarrabulho leva sangue de porco fresco - não é para estrangeiros, avisam - e leva-se quase uma tarde a fazer, mexendo sempre para não empelotar.
O mel e os caminhos
O mel do Sr. Joaquim tem gosto a esteva e a tojo; ele diz que é porque as abelhas voam mais alto que as outras. As colmeias ficam atrás da casa, num terreno que herdou do pai que já era apicultor. Comprar mel é sentar-se no banco de cimento junto à cancela, esperar que ele vá buscar o frasco de um litro e ouvir que este ano foi mau, que a chuva estragou as flores, que as abelhas andam doidas.
O caminho de terra que liga Campos a Louredo tem um buraco que ninguém conserta - "para os carros abrandarem", dizem. As samambaias crescem onde a água da chuva escorre do muro, e há uma figueira que enche o caminho de fruta podida em Setembro. O ribeiro faz barulho de frigideira quando está cheio, mas no Verão seca tanto que se pode atravar a pé sem molhar as sapatilhas.
Março em festa
A festa de São José é quando o tempo já não faz inverno mas ainda não faz primavera. A banda vem da Póvoa, toca marchas que toda a gente sabe de cor, e depois há sardinha com pão e vinho tinto que o padre abençoa. As crianças ganham balões, os velhos lembram-se de quando a procissão se fazia à luz de candeeiros de azeite. No adro da igreja, vendem-se rabanadas feitas pela associação de mulheres - vão todas de manhã para a cozinha da junta, trazem os tachos de casa e discutem-se as quantidades de açúcar e canela.
Quando o sol se põe atrás do campo de futebol, o cheiro a lenha não vem de lareiras românticas - é a do Sr. Domingos a queimar galhos cortados na vinha, é a dona Amélia a fazer jantar no fogão a lenha porque o fogão a gás gasta muito. O fumo sobe direito quando não há vento, e fica suspenso como uma norença por cima das casas. É sinal de que o dia acabou, que amanhã há mais - mais vacas a mugir, mais pão a amanhecer na padaria, mais café no O Parque onde se juntam os mesmos de sempre a resolver o mundo antes das nove da manhã.