Artigo completo sobre Covelas: onde o sino ecoa entre vinhas e granito
Covelas, Póvoa de Lanhoso: 406 habitantes numa colina de 318 metros, entre vinhas DOP, Igreja de São Julião e tradições que resistem em três quilómetros qu
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O sino da Igreja de São Julião marca o meio-dia e o eco desce pela encosta, batendo nas paredes caiadas antes de se perder nos vales. Covelas ocupa uma colina — cavella em latim, nome que ficou gravado na própria geografia — e os 318 metros de altitude bastam para que o vento chegue sempre com um minuto de atraso, trazendo o cheiro a terra lavrada e a folha de carvalho. Aqui, em menos de três quilómetros quadrados, 406 pessoas mantêm vivo um território onde cada metro conta.
A colina e o santo
A Igreja Paroquial ergue-se no centro da freguesia, dedicada a São Julião. Não há torres nem azulejos monumentais, mas a cal das paredes reflecte a luz da manhã de forma crua, quase violenta. No adro, o granito das lajes está polido pelo tempo e pelos passos — gerações inteiras que entraram, saíram, voltaram. A Festa de São José, no fim-de-semana mais próximo do dia 19 de Março, transforma a praça. Há sardinhas assadas no largo, o rancho a tocar música que se ouve até à Cancela, e os homens bebem vinho branco nos copos de plástico antes de irem à missa.
Vinhas e carne de montanha
Covelas pertence à região demarcada dos Vinhos Verdes. O vinho que aqui se faz é de loureiro, leve com aquele travo a fruta verde que corta a garganta. Na tasquinha do Zé, serve-se em jarros de barro que ninguém lava com detergente — "estraga-o", dizem. A carne Barrosã vem de Vilar da Veiga, trazida pelo Alfredo que desce de camião às quartas-feiras. É gordura amarelada, carne vermelha escura que murcha na frigideira com alho e louro. O mel é do Júlio, tem cor de cerveja preta e cheira a urze — é ele que o vai buscar às colmeias no alto das aldeias, com fato de astronauta e rede na cabeça.
Pequena, mas inteira
Com 290 hectares, Covelas é das freguesias mais pequenas do concelho. Não há rios caudalosos nem trilhos sinalizados, mas há o caminho de terra que sobe pela Fonte da Moura, onde as crianças vão apanhar morangos silvestres em Maio. O brasão, aprovado em 2003, mostra cômoros verdes e um carvalho — é o mesmo carvalho do Viso, onde o pessoal se juntava para beber aguardente e contar histórias de lobos.
A poucos quilómetros, o Castelo de Lanhoso oferece um contraponto de pedra e história, mas Covelas resiste à tentação do espectáculo. Aqui, a experiência é outra: percorrer as ruas estreitas, ouvir o silêncio entre uma casa e outra, sentir o peso do ar húmido quando o nevoeiro desce ao final da tarde. É o cheiro a fumigação das brasas no forno do Zeca, é a Maria da Conceição a bater tapetes à porta de casa às quatro da tarde, é o cão do Sr. Américo que ladra para cada carro que passa — e só passam quatro por dia.
Quando a luz começa a faltar, as janelas acendem-se uma a uma, quadrados amarelos que pontuam a colina. O vento traz o cheiro a lenha queimada, e o eco do sino — agora mais grave, mais lento — volta a descer pela encosta, como se medisse não as horas, mas a espessura do dia.