Artigo completo sobre Fonte Arcada e Oliveira: Vida entre vinhas e granito
Mil e seiscentas pessoas preservam tradições milenares na união de freguesias da Póvoa de Lanhoso
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O sino toca ao meio-dia. Ninguém olha para o relógio — é o sino que marca o tempo. Entre Fonte Arcada e Oliveira, os campos de milho seguem o vale como sempre fizeram. Três centenas de metros de altitude bastam para o ar mudar: aqui não há brisa do Lima, há o cheiro seco da terra queimada pelo sol.
A tal “fonte arcada” que dá nome ao lugar fica mesmo à entrada da aldeia, antes do cemitério. É um arco de pedra com três degraus e uma bica que nunca secou. Quem tem horta ainda vai lá encher garrafões. Oliveira é a outra aldeia: dez casas, uma oliveira centenária no adro e um café que abre quando o Zé está na disposição.
Em 2013 juntaram as duas freguesias. Hoje são 1.629 habitantes, mas abatem-se mais de 300 por ano. A escola fechou em 2009. O infantário sobrevive com sete crianças.
Festa e mesa
A Festa de São José é no terceiro fim de semana de agosto. Começa às 9h da manhã com a missa, depois servem-se migas à moda de Oliveira (pão de milho, toucinho e açaflor) e arroz de sarrabulho que leva sangue de porco preto. À tarde há tourada à corda entre os muros de pedra — os toiros vêm das quintas de Rendufe. Quem não quer pagar bilhete assiste de cima das ameias.
O vinho é de ramada: uvas Avesso e Azal plantadas em socalcos tão estreitos que o tractores não cabem. O resultado é verde, ácido, com 11% de álcool — serve-se em jarros de barro no único restaurante da freguesia, o Solar da Oliveira. Telefone: 253 621 259. Abre sexta a domingo, mas marca antes.
Caminhos
Não há trilhos marcados. Quer caminhar? Pegue na estrada municipal que liga Fonte Arcada a Oliveira e siga por entre os muros. São 3 km. Vai passar por três pontes de pedra sem guarda, um espigueiro convertido em casa de ferramentas e uma eira onde ainda se debulha milho à mão. No km 2, vira à esquerda numa vereda coberta de silvas — leva à mina da Fonte da Pipa, onde a água sai a 12 °C o ano todo.
Quer mais? Suba à Senhora da Graça: são 6 km de subida, 400 m de desnível. Do cimo vê-se o Gerês, o castelo de Lanhoso e, dias claros, o mar atrás de Esposende.
O que vale a pena
- Igreja matriz de Fonte Arcada: retábulo dourado do século XVIII, porta manuelina desmontada e guardada dentro. Abre às quartas-feiras para limpeza — entre.
- Cruzeiro de 1742 na encruzilhada para Oliveira: base com armações de armas lidas a ferro e cal.
- Moinho de água do Souto: ainda mói milho para pão de ló. Funciona aos sábados de manhã, basta bater à porta da casa ao lado.
O que não vale
Não venha procurar souvenirs. Não há lojas. Não há Wi-Fi público. O sinal de telemóvel falha em metade do percurso. Traga água e bom calçado — os caminhos são de pedra solta e lama depois de chuva.
Se vier de carro, estacione na praça de Fonte Arcada. É grátis e nunca está cheia. De Braga são 25 minutos pela EN103, depois N306. Autocarro? Dois por dia, linha Braga–Póvoa de Lanhoso. Sai às 7h45 e às 17h30. Perdeu? Espere pelo dia seguinte.