Artigo completo sobre Galegos: aldeia minhota entre espigueiros e fumo de cabrito
Freguesia de 559 habitantes na Póvoa de Lanhoso preserva pegadas de urso em granito e festas centená
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O aroma a lenha de carvalho escapa-se da chaminé do O Moinho antes mesmo de se avistar a igreja. Em Galegos, o fumo do forno marca o ritmo da manhã tanto quanto o sino da torre — e quando digo manhã, falo das sete e meia, que é quando o Zé Mário já está a virar o cabrito para não pegar. A aldeia agarra-se a um anfiteatro de granito a 237 metros de altitude, onde os muros de pedra seca dividem lameiros e soutos. São 559 almas em 294 hectares — ou seja, menos terra que muita quinta de fim-de-semana, mas com mais história que muito concelho.
Pegadas de urso nos pilares do pão
O nome faz confusão até aos da terra. Galegos, aqui no fundo do Minho? A história oficial enrola-se, mas o que interessa é que alguém, há séculos, decidiu que isto era sítio para ficar. E ficou-se mesmo. A igreja de São José é do século XVIII, com dourado que já viu melhores dias mas ainda faz inveja às novas. As três capelas — São Sebastião, Nossa Senhora do Carmo e São Roque — são como postos de bispo espalhados pela aldeia. Mas o que vale a pena mesmo ver é o espigueiro comunitário em Vilar: nos pilares de granito há pegadas de urso esculpidas. Dizem que é para afastar os maus espíritos dos cereais. Eu cá acho que foi o pedreiro a aborrecer-se.
Sopas, máscaras e cânticos ao desafio
A festa de São José, a 19 de Março, é o dia em que Galegos engole o dobro. Missa às dez, procissão às onze, e depois é tudo a correr para as sopas no adro. Panelas de ferro que parecem tanques de guerra, mas o que lá vai dentro é bom: couve, feijão, toucinho e um pouco daquele pão de milho que só a vizinha D. Rosa faz bem. À noite há arraial, mas não é como nos outdoors — aqui o palco é a carrinha da Câmara e o som vem de um sistema que o Rui arranjou numa feira de Barcelos.
A romaria de São Sebastião mudou-se para Julho porque em Janeiro ninguém tem pachorra para festa. Agora é no primeiro domingo do mês e até vem gente de Fafe. Há ranchos folclóricos, uma feira de artesanato onde a avó da Natércia vende os seus tapetes de trapo, e um cântico ao desafio que o meu tio diz que já foi melhor — mas eu acho que ele é que já não ouve bem.
Rojões, Barrosã e mel das terras altas
No O Moinho, o cabrito demora o seu tempo. Não é espetáculo, é cozinha. Vai rodando, regado com azeite e alho, enquanto o Zé Mário conta as histórias do costume — que já agora, são sempre as mesmas, mas ninguém se cansa. O rojão é servido em tacho de barro, com toucinho que derrete na boca e batatas que parecem esponjas. A carne é Barrosã, daquelas vacas que ainda pastam à vista da aldeia. Para sobremesa, o pudim de São José é obrigatório — é tão doce que até o meu pai, que diz que não gosta de nada, come dois.
O vinho verde vem da Quinta do Outeiro, ali ao lado da estrada de Lama. Não tem etiqueta bonita, mas desce que nem água. A aguardente é de bagaço, claro, e o mel é DOP — "Das Terras Altas do Minho", como se aqui fosse o Himalaia. Mas é bom, é. Tão bom que o ano passado o Rui da tasca escondeu dez frascos para vender aos turistas alemães.
Cinco quilómetros entre moinhos e regatos
O trilho dos Moinhos começa no cruzeiro e acaba... bem, acaba quando estás cansado. São cinco quilómetros, mas parecem dez se fores daqueles que param em cada espigueiro para tirar fotografia. Os moinhos estão lá, uns recuperados, outros a cair. O do Pego ainda mói, mas só quando o Neto se lembra de o ligar para fazer farinha para a sopa de São João. Os lavadouros ainda servem — há senhoras que não abdicam, apesar da máquina de lavar em casa. Dizem que é para se encontrarem. E eu acredito.
Do miradouro do Cruzeiro Alto vê-se o Gerês ao fundo. Mas o que vale a pena é sentar no banco de madeira, respirar fundo e deixar o silêncio entrar. É raro, o silêncio. Mas aqui ainda se encontra.
Quando o sol se põe e o sino toca, o eco percorre os lameiros como um aviso: é hora de ir jantar. Fica o cheiro a lenha, o murmúrio da água, e na mesa do adro, um frasco de mel esquecido — prova de que alguém passou por aqui e quis levar um pedaço disto consigo.